RssVideosHomilaArtigos

HomilaLinha


Meditação para o Primeiro Sábado


(Pe. João Scognamiglio Clá Dias)1

Quarto mistério gozoso:
A Apresentação do Menino Jesus no Templo e a Purificação de Maria

Vamos dar início à meditação reparadora do primeiro sábado que nos foi indicada por Nossa Senhora quando apareceu em Fátima, no ano de 1917. Pedia Ela que comungássemos, rezássemos um terço, fizéssemos meditação dos mistérios do Rosário e confessássemos, em reparação ao seu Sapiencial e Imaculado Coração. Para os que praticassem esta devoção, Ela prometia graças especiais de salvação eterna.Toca-nos hoje meditar o quarto mistério gozoso: a apresentação do Menino Jesus no Templo.
Vamos acompanhar Nossa Senhora e São José, com o Menino Jesus nos braços, entrando no Templo.

 

Composição de lugar

 E, depois que foram concluídos os dias da purificação de Maria, segundo a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor, segundo ao que está escrito na lei do Senhor: todo  varão primogênito será consagrado ao Senhor; e para oferecerem em sacrifício, conforme o que também está escrito na lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos.
 Ora, havia então, em Jerusalém, um homem, chamado Simeão, e este homem era justo e temente a Deus, e esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava nele. E tinha-lhe sido revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte, sem ver, primeiro, o Cristo, o ungido do Senhor. E foi ao Templo conduzido pelo Espírito de Deus. E, levando os pais o Menino Jesus para cumprirem, segundo o costume da lei a seu respeito, ele também o tomou em seus braços, e louvou a Deus... (Lc. 2 - 22, 28).

 Vamos imaginar o Templo, reconstruído por Zorobabel, em sua majestade  e imponência,  bem podendo ser uma pré-figura desta Catedral. Vamos imaginar também uma Virgem boníssima, ainda jovem, acompanhada de seu esposo, e tendo nos braços um Menino. Este menino não é um menino comum: é nada mais, nada menos que o Deus encarnado. Está Ele ali, nos braços de sua Mãe, e, acompanhados por São José, entram no Templo para oferecer ao Padre Eterno este mesmo Menino.
 Acompanhemos com a nossa imaginação os acontecimentos, tendo bem diante de nossos olhos  a maravilhosa cena deste oferecimento.

 

Oração Inicial

   Ó Mãe Santíssima, Rainha do Universo, que em Fátima aparecestes fazendo menção ao Vosso Imaculado e Sapiencial Coração, - e deixando neste mundo, durante décadas, a Irmã Lucia como testemunha de Vossas mensagens quisestes que esta devoção se espalhasse por toda a terra - encontramo-nos, hoje, nesta Catedral para reparar o Vosso Coração de tantos crimes, de tantos abusos, de tantos pecados e tantos horrores que se praticam em nossos dias. O mundo moderno grita contra Vós, contra a pureza que é Deus, contra a Vossa Virgindade, e, por isso, encontra-se rachado e pervadido de horrores. E Vós, como Mãe bondosíssima, quereis que esses vossos filhos compreendam a grave situação em que se encontram, e ofereçam ao Menino Jesus a necessária reparação.
   Estamos nós reunidos por isso, para juntos meditarmos sobre este magnífico mistério da purificação e apresentação de Vosso Divino Filho no Templo. E pedimos que a nossa inteligência seja iluminada pelos dons de vosso Divino Esposo, e que nosso coração, por Vossa intercessão, seja por Ele fortalecido. Que nossos sentimentos não sejam outros senão aqueles que vos dão glória, louvor, alegria e contentamento.
   Ó Minha Mãe, Vós que sois tão bondosa, não permitais que minha atenção se esvaneça em distrações, não permitais que meus pensamentos se voltem para outros assuntos que não os desta meditação, e que esta reparação esteja, de certo modo, à altura de Vosso Sapiencial e Imaculado Coração.


Primeiro Ponto

  Quando o povo judeu estava debaixo do cativeiro dos egípcios - passaram mais de 400 anos nesta situação - executavam trabalhos quase forçados, tendo que pagar certo tributo e com pouca liberdade.
  É nessa circunstância que Deus suscita Moisés, confiando-lhe a missão de libertar o povo judeu da escravidão, e conduzi-lo à terra que tinha sido prometida a Abraão, Isaac e Jacó.
  Mas, evidentemente, o Faraó não queria permitir que aquela mão de obra gratuita - eram 600 mil famílias, que somavam um total de aproximadamente 2 milhões de pessoas trabalhando para o engrandecimento de seu império - partisse sem mais nem menos, causando assim um grande prejuízo para o país.
  Devido à dureza do coração do Faraó, Deus envia as dez pragas, sendo que a ultima delas seria precisamente a morte dos primogênitos dos egípcios, incluindo o do próprio Faraó, caso ele permanecesse na decisão de não permitir a saída do povo judeu.
  Ter o primogênito morto era a pior provação que uma família podia passar naquela civilização extremamente patriarcal. Mas, apesar dessa forte ameaça, o Faraó ainda não permitiu que eles partissem. Deus, então, envia o Anjo para que extermine todos os primogênitos. Para evitar que também os primogênitos dos judeus fossem mortos, Deus manda marcar a soleira da porta de suas casas com a letra "t" (thau), mas, ao mesmo tempo, exige, através da pessoa de Moisés, que, a partir daquela data, todos os primogênitos que nascessem deveriam ser entregues a Deus, e depois resgatados por algum preço. O costume, na época, era o de pagar 5 ciclos de ouro, que equivalia a 20 dias de trabalho de São José.
  A lei estabelecia também que toda mãe, tendo dado à luz um filho varão, deveria purificar-se num prazo de 40 dias e, se tivesse nascido uma menina, o prazo seria de 80 dias.
  Esta purificação deveria ser feita pagando-se um tributo, que seria um cordeiro, ou, se a família fosse pobre, duas rolas. Por isso Maria, sendo pobre, ofereceu ao Templo duas rolas. Por que duas? Uma era para cumprir a lei da purificação, e a outra para uma oferta de holocausto. Todos esses ritos parecem estranhos aos nossos olhos, mas Deus estabeleceu-os por causa da dureza e rudeza daquela civilização basicamente campestre e pastoril.
  Contudo, o cumprimento dessas duas leis não cabia ao Menino Jesus ou a Maria. Ela era puríssima, concebida sem a mancha original, e quem não tem mancha não tem o que reparar, não tem do que se purificar. Quanto a Ele, é Deus! Como oferecê-Lo a Deus, sendo Ele o próprio Deus?
  Embora essas leis não se aplicassem à Sagrada Família, puseram-se a campo. Incluo neste ato o Menino Jesus, pois possuía inteligência divina, e era desejo Seu que se cumprisse a lei conforme o costume, como veremos no decorrer da meditação.
  Dirigem-se ao Templo para obedecer a uma lei, ou, se quiserem, duas leis, se bem que religiosas, mas leis desta terra. Assim, São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus obedecem à lei de culto.
  No que diz respeito à lei de Deus, não há palavras que exprimam a fidelidade deles: São José, Patriarca da Igreja, o Menino Jesus, é o próprio Deus. Seria perfeitamente inútil demonstrar como Eles praticavam a lei divina.
  Mas o que este mistério nos revela é o quanto devemos levar a sério as leis divinas, pois, se as leis dos homens devem ser cumpridas com exatidão, muito mais ainda as leis de Deus, e essas nos foram entregues no Monte Sinai, por meio de Moisés, para que a humanidade as tivesse escritas para todo o sempre. Como se isto não bastasse, quis Deus imprimi-las em nossos corações desde o momento em que somos criados. Nossas almas são criadas com essas leis impressas.
  Não se trata de um Código de Direito Civil  ou de Direito Penal. As leis neles contidas são milhares, são leis a propósito de quase tudo. Mas não é assim com as leis estabelecidas por Deus. Elas são em número de dez, são simples, estão ao alcance de todos, infalíveis, marcadas a fogo no coração de todos aqueles que compõem o gênero humano; tenhamos instrução ou não, estejamos na ignorância por falta de alguém que nos ensine, estamos inteiramente identificados com essa lei.
  O primeiro Mandamento nos diz: "Amarás ao Senhor teu Deus com toda a inteligência, com toda a tua vontade, com toda a tua sensibilidade, acima de todas as coisas". Essa lei está impressa  no fundo de nossos corações. E quando nos apegamos a esses ou àqueles objetos, a essas ou àquelas pessoas, quando damos mais importância a uma amizade do que ao próprio Deus e, pior ainda, quando essa amizade nos leva ao pecado - portanto, a ofender a Deus levando-nos a afastar-nos dEle - estamos violando uma lei que está gravada no mais íntimo de nossas almas, e procedendo exatamente ao contrário da Virgem Maria, de São José e do Menino Jesus no momento em que entram no Templo.
 O quarto mistério gozoso nos lembra o quanto devemos levar a sério a prática da virtude. Eles não estavam obrigados a cumprir esta lei, e São José, como chefe da Sagrada Família, poderia ter proibido de cumpri-la, mas não o fez. Eles obedeceram porque tinham devoção pela lei, e para nos ensinar o quanto devemos cumprir com perfeição esta mesma lei.
"Não pecarás contra a castidade". O cumprimento deste mandamento não depende da época, não depende de circunstâncias, não depende de saber se deve ou não deve cobrir o corpo. Todos sabem. Quando Deus procurou Adão e Eva, depois que tinham pecado, para saber o que tinha acontecido, eles estavam envergonhados e fugindo da presença de Deus. Por isso, antes de serem postos fora do Paraíso, o Pai Eterno fez roupas para eles. É Ele o Divino Alfaiate, e não se conhece um outro caso na história em que o próprio Deus tenha feito roupas para alguma de suas criaturas.
Vamos meditar sobre este ponto: Deus teria usado a moda imoral que existe hoje em dia para vestir Eva e Adão? Os dois estavam sozinhos no Paraíso, iam ser postos fora, é verdade, mas ele é o marido e ela, a esposa, os dois são casados; ela foi tirada de uma costela dele, e, entretanto, Deus quis lhes fazer roupas, porque quer vê-los vestidos, e é segundo a Sua vontade que o homem e a mulher se vistam decentemente.
Agora, poderíamos nos perguntar: que roupas teria feito Deus para o primeiro casal? Por aí nós vemos o quanto os mandamentos devem ser observados por nós, e o quanto devem ser tomados a sério, como a Santíssima Virgem e São José tomaram a sério esta disposição da lei de Moisés, que era meramente preceitual. Da parte deles não houve dúvida, cumpriram na perfeição.
Neste primeiro ponto da meditação vemos Maria, José e o Menino Jesus cumprirem este preceito da lei indo ao Templo para que Ela fosse purificada e Ele resgatado. Volto-me à Imagem Peregrina do Imaculado Coração de  Nossa Senhora e suplico:
Ó Maria Santíssima, Vós que sois mais que a cumpridora da lei, Vós vos identificastes de tal forma com a própria lei, que podíeis ser chamada de Virgem lei, Dama lei, Senhora lei. Vemos refletida em vosso Coração a própria lei de Deus; observante exímia de todos os preceitos, tão honesta, tão reta, tão feita de pureza e de integridade, eu vos peço, neste momento em que meditamos o mistério da Apresentação no Templo, a graça de ter, dentro do coraçã,o a lei de Deus gravada a fogo e de modo sensível, como ela esteve em vosso coração.


Segundo Ponto

    Nós encontramos na cena da Apresentação no Templo um ancião, de quem diz a Escritura: " ...Ora, havia então em Jerusalém um homem, chamado Simeão, e este homem era justo e temente a Deus, e esperava a consolação de Israel".(Lc. 2 - 25).
Justo, na linguagem da Escritura, significa santo, portanto, perfeito, e que procurava seguir a lei de Deus com exatidão.
Justo e temente a Deus. Bastaria ser justo, mas o Espírito Santo põe na pluma de São Lucas o elogio deste temor de Deus. Por quê?
Vamos analisar este varão que passou a vida inteira à espera dAquele que traria a salvação de Israel. O velho Simeão aguardava no Templo, dia após dia, a vinda do Salvador. Este homem era santo e temente a Deus, e o fato de ele temer o Senhor tem uma importância muito grande. Todo ser humano é lógico, nós não praticamos o mal pelo mal, não abraçamos o erro pelo erro, não queremos o feio pelo feio. Quando alguém comete um crime, ele dará os motivos para justificar o seu crime com certa lógica, ou seja, estava dentro dos desígnios de sua inteligência aquele ato. Ele partirá de uma premissa maior errada, mas a premissa menor e a conclusão serão exatas. O ser humano tem sempre diante de si a coerência, e esta não se rompe de forma alguma.
Ora, dentro dessa coerência, dentro do instinto da verdade que cada um tem, do instinto da bondade, do instinto do belo, dentro do instinto da unidade que existe em todo ser humano, para se praticar qualquer ato que contrarie algum desses instintos é preciso fazer violência, a fim de deformá-los. Mas, ao mesmo tempo em que os deforma, vai-se destruindo aquilo que de mais precioso há nesses instintos, que é o temor de ofender a Deus, é o pesar de ter andado mal: "Adão, Adão,  onde estás?" O temor ajuda a não pecar. Não basta só o amor, não basta a santidade, não basta o desejo de andar bem. É preciso que haja o temor. É por isso que o Espírito Santo, pelos lábios de São Lucas, elogia o velho Simeão em seu amor e também em seu temor.
Belo exemplo para nós, pois sendo ele santo, amando o bem, amando a verdade, por ser temente a Deus e cheio de esperança, vai receber a grande graça de contemplar Aquele que é a salvação de mundo. Portanto, se queremos alcançar os favores de Deus, a melhor forma é sermos justos, tementes a Deus e cheios de esperança.
É em vista do grande exemplo que nos dá Simeão, que nos voltamos à imagem peregrina de Nossa Senhora implorando:
Ó Mãe Santíssima, nesta meditação em reparação ao Vosso Imaculado e Sapiencial Coração, pedimos com calor, entusiasmo e fervor, que nos alcanceis a graça de sempre temer ofender a Deus, não só por ser Ele quem é, mas também por temer o castigo. Pois Deus é justo, Vós bem o sabeis, e se não fosse a vossa bondosa proteção, onde estaríamos? Fostes Vós que nos tirastes dos caminhos tortuosos e nos colocastes nas vias do bem, e sempre intercedendo junto ao Pai Celeste para nos alcançar o perdão.
Neste momento, pedimos, além do perdão, a graça de sermos justos, temermos a Deus e de esperarmos com confiança.


Terceiro Ponto

Poderíamos tomar o dia de hoje para meditarmos neste trecho do Evangelho de São Lucas, capítulo 2, 22-34, mas o tempo não permite. Vamos então, para terminar, fixar nossa atenção na profecia de Simeão: ¨E Simeão os abençoou, e disse à Maria sua mãe: eis que este Menino está posto para ruína e para ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição. E uma espada transpassará a tua alma, a fim de se descobrirem os pensamentos escondidos nos corações de muitos¨.
  À primeira vista esta profecia nos choca, pois como pode o Salvador do mundo vir para a ruína de muitos?
Na verdade, Jesus não veio para condenar, veio, isto sim, em Sua infinita bondade. Ele tomou a nossa natureza humana e, apesar de a alma estar na visão beatífica, Ele assumiu as nossas debilidades, a capacidade de sofrer, porque queria se sujeitar a todas as dores. Então não se pode dizer que Jesus veio para condenar muitos; não, é bem exatamente o contrário, Ele veio para trazer os tesouros de Sua bondade, a graça divina, a possibilidade de se praticar as virtudes sobrenaturais, os dons, os sacramentos (Batismo, Confissão, Crisma, Eucaristia, etc.), numa palavra, a Redenção.
¨Noblesse oblige¨! Ser nobre obriga, diz um ditado francês. Uma vez que Ele nos deu tanto, é preciso que sejamos reconhecidos pelo bem de que fomos objeto.
Agora, o que acontece com aqueles que rejeitam os benefícios que Deus concede? Evidentemente a ruína. Nosso Senhor quer salvar a cada um de nós, mas uma vez dada a graça, é preciso saber reconhecer, saber retribuir.


Oração Final

 Para encerrarmos esta meditação, voltemos a Nossa Senhora os nossos corações cheios de ânimo pela beleza, pela pureza de seu Sapiencial e Imaculado Coração e, aproveitando todos os frutos deste quarto mistério gozoso, peçamos:
 
Ó Mãe da divina graça, Mãe puríssima, Mãe santíssima, Mãe terna e carinhosa, terminada esta meditação a qual oferecemos em desagravo a Vós e ao Vosso Divino Filho, imploramo-vos que façais o nosso coração semelhante ao Vosso: pleno de amor à lei de Deus, pleno de santidade, de justiça, cheio do santo temor de Deus, cheio do temor de Vós, pois, o que não queremos, de forma alguma, é que o nosso coração seja semelhante àquele que no céu se revoltou contra Deus, porque queria ser igual a Deus. O que queremos é ser puros e humildes como Vós. E poder dizer como dissestes à vossa prima Santa Isabel: "Minha alma engrandece o Senhor", por vosso favor e misericórdia.
 Aceitai esta meditação, ó Senhora, em reparação aos males dos dias atuais, e que a enormidade das misérias que assolam este século seja sanada pelo cumprimento da lei de Deus,  pelo amor a sua justiça e pelo temor de ofendê-Lo.

Assim seja!

                

1 OBS: Homilía adaptada à linguagem escrita, publicada sem conhecimento e/ou revisão do autor. Meditação na Catedral da Sé  (Março 2005)
 

Pe. João Clá Dias

Índice de Homilias | Home

Copyright© Arautos do Evangelho 2008. Todos os direitos reservados.
Divulgação autorizada, citando a fonte.