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Meditação para o Primeiro Sábado


Terceiro mistério gozoso:
O nascimento do Menino Jesus numa gruta em Belém.


Mons. João Scognamiglio Clá Dias1

    Vamos dar inicio à meditação reparadora do primeiro sábado, que nos foi indicada por Nossa Senhora quando apareceu em Fátima,  no ano de 1917. Pedia Ela que comungássemos, rezássemos um terço, fizéssemos meditação dos mistérios do Rosário e confessássemos, em reparação ao seu Sapiencial e Imaculado Coração. Para os que praticassem esta devoção, Ela prometia graças especiais de salvação eterna e a saída do purgatório no primeiro sábado após a morte, para aqueles que para lá tivessem ido.
     Hoje deveremos tratar do terceiro mistério gozoso, que é o nascimento do Menino Jesus.
 A meditação deste mistério coincide com o início da quaresma, que será na próxima semana, de maneira que devemos pôr nossos olhos no Menino Jesus deitado no Presépio, tendo como fundo de quadro este período de penitência indicado pela Igreja para nos preparar para a Paixão de Nosso Senhor.
 

Composição de lugar

    Vamos, primeiro, ter nossa atenção presa ao quadro do nascimento do Menino Jesus. Este quadro está muito bem descrito no Evangelho de São Lucas, capítulo 2, versículos de 1 a 21, que nos mostram com muito esplendor, com muita precisão e com muita beleza, o nascimento do nosso Redentor.
    Vamos fixar nossa atenção na gruta em Belém. Uma gruta que é uma estrebaria. É um lugar onde os animais passam a noite, se refugiam do frio, da chuva, etc.
    Aí vamos encontrar duas pessoas. E que pessoas? Maria Santíssima e São José. E não num berço, mas sim numa manjedoura, num cocho onde os animais comem. Vamos encontrar aqui nestas tábuas, em cima destas tábuas, umas palhas, e sobre as palhas, envolto em panos, o Menino Jesus.
    Fixemos nossa atenção nesta cena tão conhecida. Todos os anos nós a realizamos em nossa casa, ou em nossa igreja: o Presépio, o local onde está representado o nascimento do Menino Jesus.
    Fixemos nossa atenção, e voltemos nosso olhar para esta imagem bendita,  abençoada por sua S. S. o Papa João Paulo II  -  hoje tão necessitado de orações pelo  restabelecimento completo de sua saúde -  e vamos oferecer esta meditação em reparação ao Imaculado Coração de Maria. Pedimos também a Ela que vele pelo Santo Padre. E ao mesmo tempo,  vamos pedir graças especiais para realizar esta meditação.
 


Oração Inicial

    Virgem Santíssima, Rainha de Fátima, Vós que, entre outras formas quisestes aparecer com o vosso Coração Imaculado, dissestes que esta devoção salvaria o mundo. Por isso aqui estamos realizando esta meditação reparadora, a fim de gozarmos dos privilégios que concedeis a todos aqueles que assim procedem e, ao mesmo tempo, meditarmos sobre o nascimento de vosso Divino Filho.
    Ó Virgem Mãe, quando olháveis para o Menino Jesus na manjedoura, quando O víeis abrindo os braços, Vós víeis que aqueles braços abertos significavam um gesto que, trinta e três anos mais tarde, seria realizado plenamente quando Ele estivesse pregado na cruz. Vós víeis vosso Filho na mais completa e total pobreza, maior impossível. Víeis vosso Filho  completamente carente de todo luxo, de todo conforto. E, bem exatamente o contrário, quase como um indigente colocado numa manjedoura. E Vós pensáveis: “Meu Filho nasce na pobreza, e na mais completa pobreza”. E Vós aceitáveis, com o coração que tendes, tão flexível e tão disposto a obedecer a Deus, Vós aceitáveis esta condição. E Vós também íeis vos preparando para algo muito pior: para a cruz, para a crucifixão de Nosso Senhor Jesus Cristo!
     Ó Mãe Santíssima, neste carnaval que se iniciou, neste momento em que tantos pecados sobem para Vos ofender, tantos pecados são praticados nas ruas, nos salões e em tantos outros ambientes, ferindo assim o Vosso Coração; aceitai Senhora esta meditação, e iluminai o nosso entendimento, inflamai nossa vontade, para que, entendendo bem o sentido  profundo do nascimento do Menino Jesus, nós possamos amar mais a Ele, adorar mais este Menino e também servirmos mais a Vós, a São José e à Santa Igreja.


Meditação

    O primeiro ponto de nossa meditação recai sobre um aspecto muito pouco comentado, muito pouco analisado, pois Natal é um momento de alegria.
    Mas nós, em vista da quaresma, vamos olhar para o Menino Jesus enquanto vítima.
   Vítima! O que caracteriza Nosso Senhor Jesus Cristo já no berço, antes de tudo, acima de tudo, essencialmente? É Ele enquanto vítima. Ele quer ser vítima. Ele quer espiar os pecados cometidos pelos homens, Ele quer glorificar a Deus, Ele é vítima. E ali está, portanto, um Menino que vai reparar os pecados de todos os tempos. Um menino que tem, já no berço, consciência clara, consciência lucidíssima,  tanto mais que a alma d´Ele é esplendidíssima e já criada na própria visão de Deus, na própria visão beatífica. Em Deus, a alma d´Ele, já no seu início enquanto homem, via tudo. Deus deu a Ele uma visão completa da própria missão d´Ele enquanto homem.
    Ora, Ele é homem e é Deus. É um mistério. É um dos principais mistérios de nossa fé essa junção de Deus e Homem num só ser, na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade; e por isso conhecia tudo já no primeiro instante de sua concepção. E desde o primeiro momento, Ele quis ser vítima.
    Segundo todos os Santos Padres da Igreja, o sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo termina no Calvário. É real, mas começa neste berço que é uma manjedoura, começa em Belém, começa no seu nascimento. Ao nascer, Ele já está determinado a ser vítima. Na cruz nós vamos encontrar a dor, é verdade, mas no Presépio nós encontramos a pobreza.
 Ele quis sofrer. Por que  quis sofrer?
    Porque sabia que nós, com nosso arrependimento, com nossa emenda, com nossos sacrifícios, com nossos atos de virtude, com o que fosse, não conseguiríamos jamais ter méritos, pois nós estávamos colocados fora do estado de graça,  tínhamos sido postos fora do Paraíso, e, para podermos ter merecimento, era indispensável que Ele assim procedesse: que Ele usasse de um meio para conceder os méritos de que  necessitamos para alcançar a eternidade. Ele não quis outro meio. Ele, que é Todo Poderoso, escolheu o meio mais pobre, o mais cheio de sofrimentos, Ele quis se encarnar para vir à Terra, quando, na realidade, podia gozar de sua felicidade eterna e, de dentro de sua felicidade, resolver nossa situação de outra maneira.
 Não quis. Ele quis assumir nossa carne para facilitar que tivéssemos méritos, porque nossas ações unidas às d´Ele adquirem esses méritos, e sem os sofrimentos d´Ele, não os adquiriríamos.
    Mas Ele também nos dá uma grande lição, porque pecamos por soberba, por orgulho. O orgulho, que nós tivemos em nossos pais no Paraíso, e que temos ainda hoje,  sempre nos leva ao amor ao dinheiro.
    Não é que o dinheiro seja um mal em si. Ele é um risco. Nós meditaremos mais a respeito do dinheiro. Nós, por orgulho, queremos dinheiro, e quando o temos, dada a nossa sensualidade, entramos pelas piores vias  possíveis, e ofendemos a Deus da pior maneira.
    Então, Ele quis reparar nosso orgulho, quis reparar nossa desobediência, quis reparar nosso amor ao dinheiro, nosso apego às riquezas, quis reparar nossa sensualidade.
    E como Ele reparou e nos ensinou  de uma forma extraordinária a humildade!
    Para compreendermos bem e meditarmos a fundo sobre esta atitude de Nosso Senhor, pensemos e imaginemo-nos na seguinte situação: nós riquíssimos. Cada um de nós deve-se imaginar  a pessoa mais rica da face da terra. Mais da metade das riquezas que existem neste mundo devem estar em nossos cofres, em nossas mãos, em nossos bolsos.
    Imaginemos que chegasse a nós um Anjo e nos dissesse: “Você já nasceu, está na idade adulta, tem toda a riqueza do mundo; mas eu queria lhe oferecer nascer de novo. Quer nascer de novo? Mas veja, o seu nascimento vai ser numa condição inferior; eu vou lhe fazer nascer na família mais pobre, mais miserável, na família mais sem dinheiro,  mais desassistida, nas condições as mais incômodas possíveis.”
    Quem seria capaz de abandonar todos os seus privilégios e aceitar nascer numa condição tão inferior? Seria uma loucura! Pois bem, esta loucura multiplicada pelo infinito foi realizada pelo Menino Jesus, pela Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
    Ele teve dois nascimentos, como diz São Tomás de Aquino. Jesus nasceu duas vezes. Uma vez, “nasceu” Ele desde toda eternidade, ab aeternum, não teve princípio.
    Como a nossa linguagem é pobre, nós não conseguimos exprimir tudo que está  para trás na eternidade. Exprimir o que é a eternidade para diante é difícil;  muito mais ainda o que fica para trás. Ele não tem princípio. Desde todo o sempre Ele “nasceu” do Pai. O Pai deu origem a Ele desde sempre. Ele já existia desde todo o sempre, já tinha nascido desde todo o sempre. Já estava feliz, tinha tudo! Entretanto, Ele não só aceita, como Ele escolhe, Ele prefere nascer de novo.
 E em que condições? Nas piores condições possíveis, porque Ele escolheu o gênero humano. Ele podia ter escolhido para nascer como Anjo. Não. Escolheu para nascer de novo como homem. E podia, pelo menos, ter para si um palácio, mandar que os Anjos construíssem um palácio. Nós temos, por exemplo, esta catedral que é um palácio. Digamos que houvesse um palácio assim para que Ele pudesse nascer.
    Não. Ele escolheu uma gruta. Ele escolheu um cocho. Ele escolheu uma manjedoura. Ele escolheu o lugar onde os animais vão comer, para nascer e poder ser reclinado.
    E mais, Ele podia perfeitamente, fazendo jus à lei que Ele criou, ter se encarnado em corpo glorioso. Não. Ele suspendeu essa lei, pois, sendo a alma d´Ele criada na visão de Deus, na visão beatífica, seu corpo deveria ser glorioso. Ele, então, suspendeu essa lei para poder padecer.
    No Presépio, nós encontramos a reparação do nosso orgulho na humildade de Nosso Senhor.
    Mas Ele é o Divino Mestre, é aquele que vai ensinar a todos, Ele vem trazendo revelações. Ele é Deus! Entretanto, está ali como um bebê. Não fala, não é capaz de pronunciar uma palavra; Ele chora; Ele geme; Ele tem frio; Ele tem calor; Ele tem sede; Ele tem fome. Ele aceitou assumir essas condições por amor de cada um de nós. Ele quis isso, porque quis reparar. Ele não é capaz, sequer, de pronunciar o nome da própria Mãe, Ele que vai ser um mestre extraordinário.
    Mas Ele vai reparar também por cada um de nós no que toca ao amor e apego ao dinheiro.
    O dinheiro é, segundo um ditado célebre do nordeste, “um bom servidor e um mal senhor”. Ele serve bem, é útil para exercermos e cumprirmos a nossa vocação, a nossa missão. É útil para os nossos meios de apostolado,  é útil  para, uma vez bem empregado, aproximar-me  mais de Deus; é útil para decorar o templo de Deus. Ele é útil para tantas outras coisas enquanto servo, mas não enquanto senhor.
    E aqueles que estão apegados ao dinheiro, têm, no Presépio, esse exemplo extraordinário:  Nosso Senhor Jesus Cristo, Criador do Céu e da Terra, Senhor de todos os senhores, Senhor de todos os reis, Senhor de tudo o que existe, abandona tudo e se põe num Presépio como um bebê, para nos ensinar que nós não devemos colocar nosso coração nos bens materiais. Não é que não devamos ter os bens materiais. Devemos, isso sim, servir-nos deles para louvar a Deus, para servi-Lo. Mas não devemos nos apegar a eles a ponto de os transformar em fim. 
    A riqueza, o dinheiro, são um meio para podermos chegar mais folgadamente, mais diretamente a Deus. Mas são um risco. O dinheiro para nós constitui um risco.
    Alguém diria: “Ah, então é melhor ser pobre!” Depende. Depende da vocação de cada um, depende do estado social da pessoa, depende das circunstâncias de apostolado de cada instituição.
 Ser pobre ou ser rico é secundário. O que importa é o fim, e o fim é a glória de Deus. É por isso que os Anjos cantaram: “Glória a Deus nas alturas!”. Nós somos chamados a dar glória a Deus, quer seja na pobreza, quer seja na riqueza.
 É  mais fácil, e por isso mais perigoso,  apegarmo-nos aos bens materiais do que nos apegarmos à glória de Deus. E por ser mais fácil, é mais arriscado ter dinheiro do que não tê-lo.
 Nesse sentido, mais vale a pena, nesta meditação, vermos a pobreza do Menino Jesus ali no Presépio, e vermos o quanto Ele se desfez das riquezas. E isso enquanto homem, porque enquanto Deus, Ele não podia se desfazer da riqueza. Ele, enquanto Deus, é um ser rico. Se Nosso Senhor tivesse que se encarnar, aparecendo externamente com todo o tesouro que Ele possui, seria de nós ficarmos boquiabertos ao vermos a sua riqueza, porque Ele deveria vir com todo o ouro, com toda a prata, com todas as pedras preciosas, com todas as maravilhas materiais que possam existir; deveria se apresentar com uma roupagem extraordinariamente bela.
    Se Ele usasse da proporcionalidade em relação à sua natureza divina, não haveria no mundo nada que pudesse estar à sua altura. Era preciso criar mais, e mais, e mais, para poder ter os tapetes que cobrissem os caminhos que chegassem até Ele.
 Ele deixou tudo isto de lado, e apareceu como um bebê, envolto em panos. Esses panos lembram algo do Santo Sudário. O Santo Sudário está ali representado nesses panos que envolviam o Menino Jesus.
    Olhamos para Ele nesta pobreza, e O vemos desprovido de ar condicionado, de aquecimento ou coisa que o valha. O que havia para aquecê-lO era um burro e um boi. Era o bafo do burro e do boi que O acalentava nesta noite de Natal.
    Quem Ele tinha para prestar-lhe culto nesta noite? Maria Santíssima, é verdade,  e ninguém mais, porque ninguém pode se comparar a Ela. Mas fora isso, são os pastores.
    E então, na nossa meditação de primeiro sábado, devemos ter dentro do coração esta atitude de Nosso Senhor, a qual repara nosso orgulho, nosso amor ao dinheiro e nossa sensualidade. Quantos pecados não foram cometidos com o dinheiro?   Quantos pecados não foram cometidos por causa dessa inclinação ao orgulho e essa inclinação à sensualidade?
    Ali está no berço, numa manjedoura, o Menino Jesus como vítima, e vítima para reparar esses pecados todos.
 E nós hoje, nesta catedral, estamos realizando esta meditação de primeiro sábado para também reparar o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria desses pecados que são cometidos, inclusive dos nossos pecados.
    Nós devemos, neste término de meditação, olhar para o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria, que se mostra tão afetuoso, tão maternal, tão acolhedor,  fitar os olhos desta imagem. É pura imagem, uma representação, ela procura lembrar algo de Nossa Senhora. O que deve ser o olhar de Nossa Senhora, o olhar de Maria! Daria para purificar todos os pântanos do mundo, daria para purificar todas as almas que se encontram encharcadas de pecado! Contemplemos esse olhar de Maria, e pensemos na lição que o Menino Jesus nos dá no Presépio neste terceiro mistério gozoso. Pensemos o quanto o Menino Jesus sofreu frio, sede, calor, fome, sofreu necessidades de toda a ordem. Ele não sabe falar, Ele geme, chora e isto tudo para me ensinar o quê? Ensinar a sofrer, ensinar a amar as contingências da vida, ensinar a me contentar com aquilo que eu tenho, e não ter uma ambição desordenada que me leva ao delírio, ao pecado, ao orgulho, à inveja, à calúnia, à maledicência e à impureza.
    Aí está essa imagem que nos olha, que nos fita. Ela como que nos convoca também, nesta meditação, a sermos tão puros quanto Ela, a sermos tão dispostos ao sofrimento quanto Ela,  quanto São José e, sobretudo, quanto o Menino Jesus.
    E nós devemos, terminada esta meditação, pedir graças sobre graças, no sentido de termos um coração completamente feito de espírito de sacrifício, de concepção de quanto nossa vida pode nos encaminhar a sermos vítimas. Quantos aqui não terão em seus corações a mão de Deus tocando para que se entregue como o Menino Jesus? Portanto, entreguemos-nos como Ela, a nossa co-Redentora, e tenhamos bem presente que a felicidade está em dar glória a Deus. Nossa finalidade é esta: nós fomos criados com o intuito de dar glória a Deus, e não  é possível que cheguemos a ser felizes sem termos dado esta glória.
 

Oração final

   Oh Virgem Santíssima, Vós que tanto nos convidais, neste momento, a este estado de espírito, a esse amor à pobreza, à humildade, aceitai esta meditação em desagravo ao Vosso Sapiencial e Imaculado Coração e fazei nosso coração semelhante ao Vosso.
   Assim seja!

 
 1 OBS: Homilia adaptada à linguagem escrita, publicada sem conhecimento e/ou revisão do autor. Meditação na Catedral da Sé (05/02/2005).

 


 

Pe. João Clá Dias

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