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Dar a César, ou dar a Deus?

Vivendo em harmonia e cooperação, a sociedade temporal e a espiritual proporcionam as condições para o verdadeiro progresso humano.

João Scognamiglio Clá Dias

O homem foi criado por Deus para viver em sociedade, sob duas autoridades: a temporal e a espiritual. Qual deve ser sua atitude ante uma e outra? Eis o tema do Evangelho do vigésimo nono domingo do tempo comum.

“Reuniram-se então os fariseus para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras. Enviaram seus discípulos com os herodianos, que lhe disseram: Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens. Dize-nos, pois, o que te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César? Jesus, percebendo a sua malícia, respondeu: Por que me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto! Apresentaram-lhe um denário. Perguntou Jesus: De quem é esta imagem e esta inscrição? De César, responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 15-21).

Não há situação estática na vida moral

Nossa vida moral se encontra sempre em movimento. Em outras palavras, na escala de valores entre o extremo do bem e o extremo do mal, ninguém fica parado num grau determinado. Todos estamos de algum modo caminhando, ainda que muito devagar e imperceptivelmente, em direção a um dos pólos, ou embaraçados num vaivém contínuo. Há, também, acelerações para uma direção ou outra, resultantes de um grande ato de virtude ou de um gravíssimo pecado. Nessa escala, portanto, o movimento é constante, como acentuam inúmeros teólogos.

Ora, diante do Filho do Homem, esse fenômeno passou-se de forma intensa no coração de todos os que tiveram a graça de O conhecer, e, mais ainda, de com Ele conviver. Maria Santíssima não fez senão ascender a cada instante na sua já tão alta união com Deus. Em contrapartida, os adversários de Jesus cresceram de modo contínuo no ódio a Ele.

Os fariseus chegaram a um grande grau de indignação ao ouvir dos lábios do Divino Mestre parábolas ao mesmo tempo severíssimas e de clara aplicação a eles, como a dos vinhateiros homicidas, e a da festa de núpcias, como conta o Evangelho:

“Ouvindo isto, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus compreenderam que era deles que Jesus falava. E procuravam prendê-lo; mas temeram o povo, que o tinha por um profeta” (Mt 21, 45-46).

Foi essa a circunstância que os levou a se reunirem urgentemente em conselho. Esse mesmo episódio é mencionado em outros termos por São Marcos (Mc. 12, 12-13).

Tanto pela narração de um, quanto pela do outro evangelista, fica patente o dilema no qual se encontravam os fariseus. De um lado, desejavam prender Jesus para matá-Lo. De outro lado, era-lhes impossível agir neste sentido, pois os milagres, as palavras e a própria figura do Divino Mestre arrebatavam o povo, que não O abandonava um instante sequer. Como realizar esse horroroso crime contra alguém constantemente rodeado de fiéis? Agarrá-Lo na calada da noite, de forma inesperada, seria o ideal, mas impossível também, uma vez que o Redentor jamais lhes dava a oportunidade de saber onde Ele estaria após o cair do sol.

Uma cilada para Nosso Senhor

Desse modo, não havia para eles outra alternativa senão armar uma cilada ao Divino Mestre, tentando desacreditá-Lo diante da opinião pública. Abandonado por seus seguidores, Ele se tornaria uma presa fácil. Melhor ainda se conseguissem arrancar d’Ele uma afirmação de rebeldia contra o poder romano...

Longe ia o tempo em que o povo judeu dependia da proteção dos romanos para fazer face aos adversários. Desaparecido o perigo, tornava-se difícil compreender as vantagens do pagamento de um tributo ao Imperador.

Precisamente naquela época acentuava-se entre os judeus o cansaço por se encontrarem, havia séculos, dependentes do poder estrangeiro, ao que se somava uma ânsia pela vinda de um Messias, considerado como o instaurador do poder israelita sobre todas as nações. As conversas e debates sobre tais questões, fortemente entrelaçadas com outras, de ordem moral, estavam na ordem do dia em todos os rincões de Israel.

Foi nesse contexto histórico que Jesus veio pregar a Boa Nova. Ora, uma palavra orientadora d’Ele, sobre matéria tão candente, seria ouvida com incontida avidez. Os fariseus quiseram se aproveitar desse clima emocional para armar uma astuta e maldosa cilada ao Senhor: reuniram-se, pois, “para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras”.

O modo de ação do mal

Nesse episódio, merece igualmente nossa atenção a maneira de agirem os maus.

Quando deseja armar ciladas aos bons, o mal, antes de apresentar-se de forma declarada, costuma preparar sua ação por um longo processo. Assim agiram os fariseus com Nosso Senhor. Inicialmente usaram a astúcia da serpente para, depois, se insurgir contra Ele de forma pública e agressiva. Aqui vemo-los no decurso da primeira operação, desejando surpreender Jesus em flagrante, a fim de lançarem contra Ele a opinião pública.

Em nossa própria vida privada, quantas e quantas vezes da mesma maneira não somos nós surpreendidos pelo mesmo método farisaico, utilizado pelo mal para perseguir os que se esforçam em seguir os passos de Jesus? Imitemos a sabedoria do Divino Mestre, não nos deixemos surpreender...

A respeito das tais táticas farisaicas, consta mais este detalhe no Evangelho: “Enviaram seus discípulos com os herodianos...” (v. 16).

É outra demonstração de sua maldosa astúcia: escolheram alguns jovens, alunos de escolas rabínicas, para causar a impressão de autenticidade, como se tivessem real interesse em aprender. E os instruíram a se aproximar do Divino Mestre com demonstrações de respeito. Sobre esse particular, comenta o acatado exegeta L.- CL. Fillion:

“Por isso, no princípio evitaram apresentar-se em pessoa, temerosos de excitar sua desconfiança. Enviaram alguns de seus jovens talmudim ou discípulos, os quais, com candura aparente, vieram propor-Lhe um caso de consciência, esperando que o resolvesse de modo que ficasse numa situação muito difícil” 1.

No mesmo versículo 16, outro da­ do chama a atenção: “Enviaram seus discípulos com os herodianos...”.

Mesmo quando estão em campos opostos, é incrível a capacidade dos maus de se unirem contra o Bem. Os fariseus anelavam a independência e supremacia de Israel, e odiavam os romanos; os herodianos apoiavam a família de Herodes, que recebeu seu poder dos romanos.

Assim, embora encarniçados adversários, fariseus e herodianos encontram-se irmanados neste episódio, em busca de um fim comum: o deicídio.

Da astúcia da serpente faz parte a adulação insidiosa: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens”.

Com tais palavras, os fariseus condenam-se eles mesmos. Com efeito, não eram sinceros e viviam preocupados com a opinião alheia a respeito de si próprios, só cuidando das aparências.

“Dize-nos, pois, o que te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César?”

Se Jesus optasse pela obrigação moral de pagar o imposto exigido pelos romanos, prontas já estavam as tubas dos adversários para sublevar os israelitas contra Ele, pois não era admissível um Messias que se manifestasse a favor da submissão ao estrangeiro gentio. De outro lado, se Jesus negasse a liceidade do tributo, seria denunciado às autoridades romanas, que por certo o condenariam à morte.

Aqui fica claro o papel dos herodianos nesse episódio. “Como adeptos do governo de Roma, seriam acusadores e testemunhas, se a resposta de Jesus lhes parecesse contrária aos interesses do Império”, comenta o já mencionado Fillion 2.

Jesus inverte os papéis

Na seqüência do episódio evangélico, Nosso Senhor quiçá haja surpreendido seus adversários pela veemência da resposta:

“Jesus, percebendo a sua malícia, respondeu: Por que me tentais, hipócritas?”.

Que grande diferença entre os métodos empregados respectivamente pelo mal e pelo bem! Os fariseus adulam para perder, Jesus increpa para salvar.

Não podiam os fariseus se queixar por receberem essa severa recriminação. Jesus, a Sabedoria Eterna e Encarnada, respondia em primeiro lugar à intenção oculta deles: tentar com hipocrisia. “Não lhes responde suavemente”, comenta São João Crisóstomo, “de acordo com as palavras pacíficas que Lhe haviam dirigido, mas com aspereza, segundo suas más intenções; porque Deus responde aos pensamentos e não às palavras” (apud Catena Aurea). E os desmascarava diante do público. Jesus continuou:

“Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto! Apresentaram-lhe um denário”.

Os romanos permitiam que moedas de cobre fossem cunhadas pelas autoridades do povo local. Nelas eram impressas figuras tiradas dos reinos vegetal e animal. O denário, entretanto, moeda de prata para uso em todo o Império, era monopólio de Roma. Com ele se pagava o imposto e tinha gravada a efígie do imperador, cingida de uma coroa de louros, com esta inscrição: “Tibério César, sublime filho do divino Augusto”.

Ao fazer os fariseus lhe mostrarem uma dessas moedas, Jesus acabava de inverter os papéis. Deixava evidente que, embora em teoria rejeitassem o imperador como senhor do país, na prática o aceitavam, utilizando-se de seu dinheiro. Eles, de seu lado, perceberam para onde caminharia a resposta. Contudo, em sua maldade e cegueira, iludiam-se, esperando ainda uma possível falha de Nosso Senhor. Podemos imaginar a atmosfera de suspense formada nesse instante:

“Perguntou Jesus: De quem é esta imagem e esta inscrição?”.

Método de suprema sabedoria em responder: obrigar o adversário a tirar a conclusão da própria afirmação que fez. Os inquiridos passaram a ser os fariseus:

“De César, responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”

Eis a resposta que se gravou para sempre nos céus da História. Quem utilizava o dinheiro de César, que lhe pagasse o imposto devido, ainda mais tendo em vista os benefícios proporcionados à Palestina pela administração romana.

Em se tratando de uma nação essencialmente teocrática, como era a judaica, compreende-se a perplexidade na qual muitos podiam se encontrar. Porém, havia uma situação de fato da qual não se podia prescindir.

O ensinamento de Jesus sobre a harmonia entre a ordem espiritual e a temporal

As coisas de Deus e as coisas da terra não devem ser antagônicas. Pelo contrário, entre elas deve haver colaboração. Na harmonia entre ambas as esferas, a temporal e a espiritual, está o segredo do progresso. E a História nos mostra que nada pode haver de mais excelente do que seguir o conselho de Nosso Senhor: “Buscai, pois, o reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Lc 12, 31).

Seja dito de passagem, nessa conjugação e colaboração entre o espiritual e o temporal é que, segundo o seu carisma, esforçam-se os Arautos do Evangelho: em atuar procurando a “consecratio mundi”, a sacralização da ordem temporal, enquanto leigos, e sendo filhos amorosos da Igreja, fiéis ao Papa, como instrumentos da Nova Evangelização.

Harmonia dentro de nós

Pode-se dizer que há uma espécie de convívio entre as duas esferas dentro do homem, uma vez que temos para conosco deveres referentes à nossa vida espiritual e às necessidades de nosso corpo. A tal respeito, comenta São Tomás de Aquino na Catena Aurea:

“Também podemos entender essa passagem [do Evangelho] no sentido moral, porque devemos dar ao corpo algumas coisas, como o tributo a César, isto é, o necessário; mas tudo o que corresponde à natureza das almas, isto é, o que se refere à virtude, devemos oferecer ao Senhor. Os que ensinam a lei de modo exagerado e ordenam que não cuidemos em absoluto das coisas devidas ao corpo .... são fariseus, que proíbem pagar o tributo a César; e os que dizem que devemos conceder ao corpo mais do que devemos, são herodianos. Nosso Salvador quer que a virtude não seja desprezada, quando prestamos atenção demasiada ao corpo; nem que seja oprimida a natureza, quando nos dedicamos com excesso à prática da virtude.”

Concluamos, seguindo o conselho de Santo Agostinho: se nos preocupamos com as moedas nas quais está gravada a efígie de César, muito mais devemos nos preocupar com nossas almas, nas quais Deus gravou sua própria imagem. Se a perda de um bem terreno nos entristece, muito mais nos deve contristar o causar dano à nossa alma pelo pecado. ?

1) Vida de Nuestro Señor Jesucristo, t. 4, p. 90

2) Id. ib.

 

Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

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