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Meditação do Terceiro Mistério Gozoso

O Nascimento do Menino Jesus em Belém

“Aconteceu que naqueles dias César Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento de toda a terra” (Lc 2, 1-21).

Mons. João S. Clá Dias

Ao nos aproximarmos do presépio, meditemos sobre aqueles acontecimentos que marcaram para sempre a história da humanidade, e que uma palavra hebraica sintetiza com justeza: Emmanuel. Quer dizer, “Deus conosco”, o próprio Senhor de todas as coisas assumiu a natureza humana e veio para estar no meio de nós.

A linguagem da Escritura

São Lucas, ao introduzir o tema, não se exprime com exageros didáticos, mas sim, com encantadora singeleza.

Encontramos esta mesma simplicidade ao longo de toda a Sagrada Escritura. Não se trata apenas de um princípio de sabedoria, mas de arte literária: ao se descrever algo substancialmente grandioso, torna-se desnecessário utilizar uma linguagem enfática. A ênfase é indispensável quando queremos chamar a atenção para algo que, de si, não tem ou parece não ter importância.

O que São Lucas descreverá é o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, fato insuperável na História.

Deus se fez homem! O que mais dizer?

A vida orgânica de antigamente

Como o mundo era orgânico! O homem ainda não conhecia a agitação de hoje. Nada de comunicações instantâneas. Nada de viagens em velocidade ultra-sônica. Não! Se a vida, sob muitos ângulos, era difícil, de outro lado, quanta serenidade! Quanto tempo livre para se estar numa conversa distendida com os amigos, para conviver longamente com a família, para refletir, para rezar! Tudo era feito com calma e serenidade.

Naqueles dias, os romanos já haviam conquistado tantas terras que costumavam chamar o Mediterrâneo de Mare Nostrum. Devido à essa rápida expansão, tornava-se urgente saber qual o número real da população do Império.

Para o recenseamento, diz o Evangelho que “todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal”. Quer dizer, iam aonde se encontravam as próprias raízes, mantinham vínculos com suas origens, que não raro atravessavam os séculos, e lhes marcavam a existência.

Espírito de respeito às regras

“Por ser da família e descendência de Davi, São José subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, até a cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida”.

Sendo de estirpe real, José deveria apresentar-se com sua esposa na cidade de seus ancestrais. Era necessário caminhar uns 150 quilômetros, distância que separava Nazaré de Belém por aquelas estradas.

Não haviam ainda os romanos posto em prática toda a sua capacidade organizadora no tocante à rede de comunicação de seu Império. É verdade que já estavam construindo, na região de Roma, ótimas estradas, levantavam pontes e viadutos sólidos, mas os caminhos da Palestina não haviam sido endireitados e pavimentados até então.

Eram vias ricas de aspectos pitorescos, mas quão tortuosas, esburacadas e arriscadas! Foi por este cenário agreste que se aventuraram José e Maria durante alguns dias. Felizmente, por estarem num período de recenseamento, por todo percurso encontravam uma multidão de pessoas, diminuindo de certo modo os perigos. Apesar disso não deixava de ser um deslocamento penoso.

Não consta que José e Maria hajam se queixado de algo. Submeteram-se docilmente às determinações, por serem fiéis ao princípio da autoridade, criado por Deus e posto em prática na legislação. Não se tratava de uma ordem criminosa nem injusta; logo, devia ser obedecida.

O encontro mais sublime da História

“Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz seu Filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria”.

Este belo trecho deixa transparecer a profissão do Evangelista. Com efeito, ele era médico. Sabia que uma mãe, ao dar à luz, não tem forças para preocupar-se diretamente com o recém-nascido, e que o normal é deixá-lo aos cuidados de outras pessoas. São Lucas, portanto, ao afirmar ter sido Nossa Senhora quem tratou o menino – “Ela o enfaixou e colocou na manjedoura” – deseja ressaltar que o parto foi indolor, não trazendo consigo os estigmas do pecado original. Esta idéia é sublinhada também pelo fato de Maria não ter se preocupado em banhar seu Filho. Nasceu Ele com tanta luz, que a Mãe o enfaixou imediatamente.

Podemos imaginar a cena: a Santíssima Virgem, que vê pela primeira vez Deus-menino, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, mas carne da carne e sangue do sangue d’Ela! Em atitude de adoração a Ele – é a única mãe que pode adorar seu filho – enfaixa-O, porque os ossos d’Ele são tenros, as cartilagens ainda são delicadas, e é necessário protegê-Lo. Enquanto é enfaixado, o Menino olha para Ela, sorri, encanta-se com essa criatura virginal que Ele mesmo planejara desde toda a eternidade. Foi este o encontro mais sublime, elevado e pleno de unção que ocorreu em toda a história da humanidade: o do Menino Deus com sua Mãe; o da Mãe com seu Filho Divino.

Sob o signo da castidade

“... pois não havia lugar para eles na hospedaria”. Por que São Lucas utiliza estes termos: “para eles”? Ele poderia ter escrito: “Não havia lugar para mais ninguém”. Por que não o fez?

Naquela época não existiam hotéis como hoje. Muitas hospedarias nem sequer possuíam quartos, o teto era às vezes de palha, ou mesmo constituído por um simples caramanchão. Os animais – cavalos, burros, camelos, etc. – eram deixados pelos viajantes num pátio defronte às portas da hospedaria. E não se pense em conveniências de higiene comuns em nossos dias. Naquele mundo se misturavam povos que estavam saindo da barbárie com outros mais primitivos. Mais de um milênio haveria de passar, para que tal situação sofresse uma mudança profunda e duradoura.

O convívio humano numa hospedaria tornava-se, por esse motivo, um tanto prosaico. E o ambiente era em geral de festa: cantava-se à noite, confraternizava-se, até que o cansaço obrigasse os viajantes a se deitarem. Mas era um dormir meio coletivo. Situação que não convinha para José e Maria, que haviam sido chamados à prática do sumo do pudor, da castidade, da virgindade. Por isso, “não havia lugar para eles”.

Desse modo, já no nascimento do Menino Jesus, deparamos com uma riqueza de significados a propósito da virgindade e da castidade que são realçados pelas circunstâncias. Sem lugar na hospedaria, o santo casal escolhe uma gruta, e é ali que nasce Deus encarnado. Ele prefere uma estrebaria a um local onde o pudor não é praticado de modo excelente. Sua Mãe, virgem imaculada, seu pai adotivo, virgem também. Castidade e pudor, eis o signo sob o qual Ele nasce.

Desapego aos bens deste mundo

A nove quilômetros da gruta ficava o palácio de Herodes: inundado de fausto, de riquezas, de opulência, de luxo, de segurança. Mas o Rei dos reis preferiu nascer na gruta. Por quê? Para nos dar outra lição: seja na pobreza, seja na riqueza, não nos esquecermos de que o importante é voltarmos os olhos para Deus.

Mas algumas pessoas estavam bem mais próximas do presépio que Herodes: “Naquela região havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho”.

Eram homens pobres e muito simples de trato, e detestados pelos fariseus por não seguirem os costumes por eles indicados. Jesus teve preferência por eles. Contudo, não julguemos que esta predileção vinha sobretudo de sua situação econômica. Antes deles, já os Reis Magos haviam começado sua viagem do Oriente, trazendo presentes. Por sonhos ou revelações quiçá, também tiveram notícia de que um Salvador nasceria, e atravessando extensas regiões e expondo-se a grandes riscos, acorreram em busca d’Ele.

Chamando uns e outros, Deus quis mostrar que veio para os pobres e para os ricos, e que o importante é não nos apegarmos aos bens materiais, mas, como diz o Papa João Paulo II, aspirarmos à “bem-aventurança dos pobres, dos ‘pobres em espírito’, como esclarece S. Mateus (Mt 5, 3), ou seja, dos humildes” (Encíclica Veritatis Splendor, nº 16). Desde que tenhamos humildade, que só se obtém com profundo amor a Deus, estaremos preparados para encontrar o Menino Jesus recém-nascido.

“Um Anjo do Senhor apareceu aos pastores, a glória do Senhor os envolveu em luz. E eles ficaram com muito medo. O Anjo, porém, disse aos pastores: ‘Não tenhais medo’”. Havia entre os judeus a crença de que, se alguém visse um Anjo, morreria em seguida. Temeram, portanto, não só pela majestade daquele ser celestial, mas também pelo presságio que sua aparição poderia representar.

“Eu vos anuncio uma grande alegria. E que será para todo o povo”. É possível que a voz do Anjo não fosse suficiente para tranqüilizar os pastores. Certamente receberem uma graça que os sustentou, e que os fez “sentir” o que ouviam. E “sentiram” que haveria alegria para eles também. “‘Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura’. E de repente juntou-se ao Anjo uma multidão da corte celeste. Cantavam louvores a Deus, dizendo: ‘Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados’”.

Percebe-se que os pastores foram crescendo na compreensão da grandeza do ocorrido, e verem as miríades de Anjos cantarem e louvarem a Deus foi para eles um espetáculo prefigurativo da visão beatífica. Com o coração transbordante de graça, talvez tenham sido santificados naquele momento. Puseram-se logo de pé, apressando-se em visitar o Menino Jesus.

Evangelho segundo Maria

Ao terminar esta parte do Evangelho, São Lucas escreve: “Maria conservava todas essas palavras e as conferia no seu coração”.

É bem possível que tenha sido Nossa Senhora quem narrou esses fatos aos Apóstolos, pedindo que seu nome não fosse mencionado Tal é a sua humildade! Mas São Lucas, escrevendo deste modo, está indicando ter sido Ela a fonte do relato, razão pela qual bem poderíamos anunciar a narração do nascimento de Jesus com estas palavras: “Proclamação do Evangelho segundo Maria!”

 

Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

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