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Comentário ao Evangelho do 6º domingo do tempo comum

Sermão da Montanha

Pe. João S. Clá Dias

As Bem-aventuranças enunciadas por Jesus mudaram o curso da História e marcaram o início de uma nova era: o Cristianismo. A crueldade do mundo pagão foi assim feri­ da de morte. E a doutrina da obediência à Lei requintou-se até alcançar um sublime grau: a prática do amor e o desejo de santificação. Neste artigo, o leitor encontrará um dos fundamentos do carisma dos Arautos do Evangelho.

17 Descendo com eles, parou numa planície. Estava lá um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de povo de toda a Judéia, de Jerusalém, do litoral de Tiro e de Sidônia.
20 Levantando os olhos para os seus discípulos, dizia: “Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o Rei­no de Deus. 21 Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados os que agora chorais, porque haveis de rir. 22 Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos repelirem, vos carregarem de injúrias e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do Filho do Ho­mem. 23 Alegrai-vos nesse dia e exultai, porque será grande a vossa recompensa no Céu. Era assim que os pais deles tratavam os profetas.
 

24 Mas ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa consolação. 25 Ai de vós os que estais saciados, porque vireis a ter fome. Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis. 26 Ai de vós, quando os homens vos louvarem, porque assim faziam aos falsos profetas os pais deles” (Lc 6, 17 e 20-26).

I — Divina preparação para a exposição da doutrina

Primeira etapa da formação: o convívio

Apesar de não serem dotados de razão e, portanto, incapazes de entender uma doutrina, os animais aprendem como se tivessem uma escola de ensino. Há entre eles um forte relacionamento instintivo, pelo qual uns transferem aos outros as experiências adquiridas. 

Por exemplo, num determinado momento, a águia começa treinar seus filhotes a lançarem-se nas primeiras tentativas de vôo; a leoa transmite à sua cria lições práticas de caça; e os insetos são alvo do instinto materno da galinha, quando estimula seus pintainhos a encontrar alimentos.

Num plano superior, isto ocorre também com o homem, ser inteligente e possuidor de um nobre instinto de sociabilidade. No colo da mãe, a criança recebe as primeiras lições: no modo de ser abraçada, beijada, acariciada... ela vai adquirindo as primeiras noções sobre o convívio social. Depois, no trato com os irmãos e parentes mais próximos, observando seus modos e costumes, ela assimilará o estilo próprio à sua família. E só muito mais tarde chegará a ocasião propícia para uma formação doutrinária e metódica.

Assim também procedeu Jesus com seus Apóstolos e com seu povo. 

Os primeiros passos para a fundação da Igreja

Já havia o Salvador pregado nas sinagogas da Galiléia, “e era aclamado por todos” (Lc 4, 15); multiplicava maravilhas por onde passava, expulsava os demônios dos possessos a ponto de levantar a interrogação: “Manda com poder e autoridade aos espíritos imundos, e eles saem?” (Lc 4, 36); curara a sogra de Pedro e um incontável número de outros enfermos (Lc 4, 38-41); operara a inesquecível pesca milagrosa (Lc 5, 1-7); quebrando todos os padrões multisseculares, tocara num leproso, tornando-o são (Lc 5, 12-14); e perdoava os pecados (Lc 5, 18-20). Assim, devido a um convívio que se tornara assíduo, todos estavam já tomados pela exemplaridade de Jesus em seus mínimos detalhes. 

Com a eleição dos doze Apóstolos, concluiu Jesus com chave de ouro a primeira fase do ensino. Tornava-se agora necessário expor sua doutrina de maneira metódica, a fim de conferir um embasamento lógico a todas as suas ações e ensinamentos. 

E é nessa seqüência que se insere o Sermão da Montanha.

Com muita propriedade, a esse respeito assim se expressa Fillion: “A instituição do Colégio Apostólico e o Sermão da Montanha são fatos conexos e ambos têm elevadíssimo significado na vida de Jesus.

Com razão são considerados como os primeiros passos para a fundação da Igreja. Com a eleição dos Apóstolos, procurava Ele auxiliares e preparava continuadores oficiais; ao pronunciar seu grande discurso, promulgava o que expressivamente tem-se chamado a Carta do Reino dos Céus” (1).

A pregação e o proceder de Jesus eram inéditos para a psicologia e mentalidade daqueles povos da Antiguidade. Por isso, não só para os judeus comuns, mas até mesmo para os próprios Apóstolos, era indispensável uma exposição estruturada do pensamento do Divino Mestre. Uns e outros estavam maravilhados, mas chegara o momento de Ele dar a conhecer de forma clara e sintética, sobretudo aos Apóstolos, a doutrina em função da qual se movia. Ademais, dada a progressiva dissensão entre Ele e os escribas e fariseus, fazia-se oportuna uma definição de programa, para assim se tornar efetiva a profecia do Velho Simeão: “Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de mui­tos em Israel e para ser sinal de contradição” (Lc 2, 34).

II — O maior paradoxo da História

Antes de nos aprofundarmos na análise das Bem-aventuranças, consideremos o grande paradoxo que representou, para a época, o Sermão da Montanha.
Os antigos gregos costumavam chamar de paradoxo ao enunciado (moral ou doutrinário) que contrariasse a opinião pública comum e corrente. E autores de grande fama afirmam ter sido esse Sermão o mais contundente, amplo e radical paradoxo havido até então. 

Para melhor compreendermos o quanto Jesus abalou os fundamentos do paganismo na gentilidade e alguns desvios introduzidos nos costumes do próprio povo eleito, recordemos em rápidas pinceladas qual era o quadro social da Antiguidade, ao iniciar o Redentor sua vida pública.

Os costumes da Antiguidade

Pode-se facilmente encher páginas e mais páginas com fatos demonstrativos da degradação do mundo antes de Jesus Cristo. Limitemo-nos a alguns dados fornecidos pelo conceituado historiador J. B. Weiss. (2) 

Diz ele: “Em toda a Antiguidade, a mulher é vista como um ser inferior. Seu valor é, segundo Aristóteles, pouco diferente do de um escravo. Sempre está submetida à tutela do pai ou do esposo (...) o marido tinha sobre ela direito de vida e de morte”.

E continua: “O pai era, não só o chefe, mas o déspota da família, e o filho era sua propriedade absoluta: podia vendê-lo até três vezes, podia matá-lo (...) A criança recém-nascida era apresentada ao pai; se este a levantasse, ela seria criada; se a deixasse no solo, seria abandonada (...) seria lançada na água ou largada às feras no bosque. Na melhor das hipóteses, ficaria exposta em locais públicos, à disposição de quem quisesse educá-la para a escravidão ou a prostituição.”

Não era muito maior o valor atribuído à vida do pobre: “O egoísmo levou o mundo antigo a desprezar a pobreza. (...) Platão opina que não é preciso preocupar-se com o pobre quando este fica enfermo, pois, não podendo mais traba­lhar, sua vida de nada mais serve”. 

Quanto aos escravos — mais de um milhão, só em Roma! — estes não tinham direito algum, podiam ser tra­tados como míseros sapatos velhos. “O romano (...) classificava assim os instrumentos: ‘uns são mudos, como o arado e o carro; outros emi­tem vozes inarticuladas, como os bois; o terceiro fala, é o escravo’.” 

O gozo desenfreado da vida, em Roma, a tal ponto embruteceu os homens que, afirma Weiss: “Agora só o sangue os podia estimular. (...) O que mais agradava ao romano era ver morrer homens”. E dá alguns exemplos.

Numa representação teatral, incendiar uma casa para assistir à morte de todos os seus habitantes. Em outra, crucificar um chefe de ladrões e, vivo ainda, trazer ursos famintos para devorá-lo diante da assistência. Numa terceira, atirar um jovem do alto de uma torre, para a platéia vê-lo espatifar-se no chão.

Tudo isto, note-se, nas duas grandes civilizações da época: a grega e a romana. O próprio povo eleito tinha alguns costumes de crueldade inegável. Por exemplo, a escravidão de gentios, a pena de talião, o impiedoso tratamento dado aos leprosos, etc.

III — O mandamento da perfeição

Esta era a situação do mundo pagão quando Jesus dirigiu aos seus discípulos e à grande multidão o Sermão da Montanha.

São Mateus desenvolve mais amplamente essa exposição doutrinária do Divino Mestre em seu capítulo 5º, terminando por uma síntese de toda a matéria no versículo 48: “Sede, pois, perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito.” Eis aqui a substância das Bem-aventuranças — assim como das maldições opostas — resumidas por São Lucas no Evangelho de hoje. Detenha­mo-nos na sua consideração.

Ao criar a alma humana, Deus infundiu-lhe um forte anseio de felicidade. Daí o não ter havido, e nem haverá, quem nunca a tenha procurado. Sobretudo em épocas como a nossa, tão atravessada por dramáticas crises, apreensões e sofrimentos, torna-se ainda mais aguda essa veemente apetência. 

Onde, porém, encontrá-la com inteira segurança?

Deus nada cria senão para Si. Por esta razão, fora d’Ele os seres inteligentes — anjos ou homens — não obtêm verdadeira felicidade a não ser cumprindo com a finalidade última para a qual foram criados. É sobre esta relação entre o homem e Deus que incide a grande promessa feita por Jesus: a de sermos bem-aventurados nesta terra e post-mortem, por toda a eternidade, no Céu. 

“Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação”

Nós cristãos, enquanto batizados, temos a obrigação de não perder o estado de graça. Se, por fraqueza ou maldade, dele nos vejamos privados, com diligência devemos procurar recuperá-lo. Essa é a chamada perfeição mínima. 

No Sermão da Montanha, Jesus não nos impõe a obrigação de sermos perfeitos. Porém, manifesta o desejo de que o aspirar a esse estado constitua um dos pontos essenciais da nossa existência. Além disso, tantos foram os tesouros por Ele deixados à humanidade — o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia, etc. — que, só por gratidão a tão imensos benefícios, já seria uma obrigação da nossa parte nos colocarmos a campo para atingir a meta enunciada por Jesus.

Com muita razão, a respeito da universalidade desse dever de santidade, assim se expressa João Paulo II: “É preciso redescobrir, em todo o seu valor programático, o capítulo V da Constituição Dogmática Lumen Gentium, intitulado ‘Vocação Universal à Santidade’. (...) O dom [de santidade concedido à Igreja] gera, por sua vez, um dever que há de moldar a existência cristã inteira: ‘Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação’ (1 Tes 4,3). É um compromisso que diz respeito não apenas a alguns, mas ‘os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade’ (...) Como explicou o Concílio, este ideal de perfeição não deve ser objeto de equívoco, vendo nele um caminho extraordinário, percorrível apenas por algum ‘gênio’ da santidade. Os caminhos da santidade são variados e apropriados à vocação de cada um” (3).

São Paulo é incansável em frisar a necessidade da perfeição sem limites, como subs­tância da vocação do cristão: “Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a bênção espiritual do Céu em Cristo, assim como n’Ele mesmo nos acolheu antes da criação do mundo, por amor, para sermos santos e imaculados diante d’Ele ...” (Ef 1, 3-4). É comum, ao longo de suas Epístolas, encontrarmos uma verdadeira sinonímia entre os termos “cristão” e “santo”, tal era o seu empenho neste particular (4).

Deus é infinito. Portanto, quem é chamado a amá-Lo tem por fim último um Ser ilimitado. O amor nosso é uma potência criada com aspiração por Deus, e por isso diz Santo Agostinho: “Nossos corações foram criados para Vós e só em Vós repousam”, ou seja, a própria potência do amor em si mesma visa o infinito. Por isso afirma São Francisco de Sales: “A medida de amar a Deus, consiste em amá-Lo sem medida”.

O próprio Jesus, com divina radicalidade, assim reforça o Mandamento dado a Moisés: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças” (Mc 12, 30). Daí se conclui termos o dever de buscar o fim em toda a sua amplitude, e de empregar, para atingi-lo, todos os meios ao nosso alcance.

Ademais, toda vida, também a sobrenatural, é suscetível de progresso, e tem em si uma força dinâmica que bus­ca seu desenvolvimento. No que diz respeito ao nosso corpo, esse processo se verifica instintiva e prazeirosamente. Quanto ao espírito, porém, é indispensável a aplicação de nossa inteligência e de nossa vontade, a fim de cooperarmos com a graça de Deus.

IV — As bem-aventuranças

Feitas essas considerações, passemos a analisar com vagar os diversos versículos do Evangelho deste domingo.

Descendo com eles, parou numa planície. Estava lá um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de povo de toda a Judéia, de Jerusalém, do litoral de Tiro e de Sidônia (v. 17)

De todas as partes acorriam os enfermos e curiosos, uns para serem libertos de seus males, outros para comprovar a realidade da fama de Jesus, que se espalhara. 

E por que não subiram to­dos para encontrar-se com Jesus no cimo do monte? São Beda, o Venerável, assim nos explica: “Rara vez se observará que as turbas tenham seguido Jesus até as alturas, ou que

Ele tenha curado algum enfermo no cimo de monte; senão que, uma vez curada a febre das paixões e acesa a luz da ciência, devagar sobe-se até o cume da perfeição evangélica” (5). Por isso o Divino Mestre desce com os Apóstolos recém-eleitos para estar com a multidão que O aguardava.

Levantando os olhos para seus discípulos... (v. 20)

São variadas as interpretações dos autores a propósito desse gesto de Jesus. Pela própria narração de Lucas, tem-se a impressão de estarem os discípulos localizados num plano mais alto que o da multidão e como talvez desejasse oferecer àquela gente um certo exemplo, apesar de estar falando a todos, fixa seu olhar nos Apóstolos.

“Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (v. 20).

A pobreza é citada em primeiro lugar por ambos os evangelistas, por ser a mãe das outras virtudes. Como poderia, aliás, alguém entrar no Reino dos Céus possuído do amor a este mundo e aos seus bens?

Quem é considerado “pobre”, segundo o Evangelho? Lázaro possuía uma das maiores fortunas de Israel, entretanto era pobre de espírito. E, em sentido oposto, Judas por sua ganância, apesar de pouco ou nada possuir de bens materiais, foi traidor por ser “rico” (de espírito).

Matéria não faltaria para escrevermos um longo tratado sobre este versículo 20, e numerosos são os autores conceituados que discorrem com precisão de conceitos a respeito dessa bem-aventurança. Para os efeitos deste artigo, basta focalizar o quanto a riqueza ou a pobreza devem ser assumidas como meios de atingir a santidade. O importante não é ter ou não dinheiro. A questão se põe em como dispor dele para adquirir o “Reino de Deus”.

O grande mal de todos os tempos é o de almejar a fortuna por puro gozo da vida, e não para melhor servir a Deus. E, debaixo desse prisma, não vem ao caso ser rico ou pobre, porque o primeiro desprezará o segundo, este invejará o outro e ambos incorrerão na sentença contida no versículo 24: “Mas ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa consolação”.
Por essa razão, é absoluta­mente preferível nada possuir, a cometer um pecado, ou até mesmo, a esfriar na piedade.

Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados (v. 21)

O Evangelista apõe a esta bem-aventurança a maldição contra os que vivem na fartura, porque virão a ter fome: “Ai de vós os que estais saciados, porque vireis a ter fome” (v. 25). De onde conclui o famoso Cornélio a Lápide que, aqui, trata-se realmente de fome de alimentos, e não apenas algo espiritual. 

É este o mais alto grau desta bem-aventurança: suportar com resignação cristã — portanto, sem revolta, sem inveja e sem ódio — os sacrifícios decorrentes da pobreza material, isto torna o pobre um bem-aventurado.

Por outro lado, também são bem-aventurados os que têm fome de Deus. A estes últimos, Deus alimentará com a sua graça, com mais abundância, na medida do desejo de perfeição. É uma “fome”, afirma Cornélio a Lápide, que ao mesmo tempo alimenta até à fartura, pois no Céu seremos saciados de felicidade e glória.

Bem-aventurados os que agora chorais, porque haveis de rir (v. 21)

Os pecadores encontram sua falsa felicidade na transgressão da lei de Deus. A estes adverte Jesus severamente, porque no dia do Juízo hão de chorar sua condenação eterna: “Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis” (v. 26). Ademais, ainda nesta terra, apesar de sua aparente alegria, vivem de tristeza, pois a consciência continuamente os acusa de suas faltas. Ao prazer decorrente do pecado sempre se segue o remorso pela falta cometida. 

Mas aqueles que choram de arrependimento pelos próprios pecados, já encontram, na sua contrição, consolo e felicidade. A experiência nos ensina que o arrependimento traz alegria, e é fruto da graça de Deus. 

Também os que suportam com paciência as dificuldades são bem-aventurados, já nesta vida. Pois, embora sofram e “chorem”, a paciência alcançada com a graça de Deus os envolve de suavidade e paz de alma. Pelo contrário, os que se mostram inconforma­dos nas adversidades, esses carregam no coração uma profunda amargura.

“Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos repelirem, vos carregarem de injúrias e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. Alegrai-vos nesse dia e exultai, porque será grande a vossa recompensa no Céu. Era assim que os pais deles tratavam os profetas. (v. 22-23)

No ser humano, o instinto de sociabilidade é mais profundo e sensível que o de conservação. São numerosos os homens que enfrentam grandes perigos, e a própria morte, mais por pressão da sociedade, pelo medo do ridículo, de serem tidos por covardes, do que por autêntico heroísmo. 

As perseguições violentas contra a Igreja, ao longo da História, povoaram o Céu de mártires e fazem pasmar de admiração o mundo inteiro. Às perseguições morais, é menor o número dos que resistem.

No mundo de hoje, quantos perdem a Fé, por não agüentarem a pressão do ambiente de ateísmo prático que os envolve? E por isso, em nossos dias, talvez seja mais meritório proclamar a Fé diante do riso irônico de um círculo de pseudo-amigos, do que o era ante o rugido das feras no Coliseu, nos primeiros tempos do Cristianismo. 

Por vezes, pior ainda do que a perseguição dos maus, é a incompreensão dos bons. 

Mas, “ai de vós quando os homens vos louvarem”, acrescenta Nosso Senhor, porque este seria o sinal de nossa falta de integridade, pois o mundo só aceita as meias verdades e a virtude frouxa, nisso empregando uma forma encoberta e mais cômoda de praticar o mal.

Jesus começa o enunciado das bem-aventuranças com a promessa do Reino dos Céus, e com ela termina, para dar a entender que também com a prática das demais se alcança o mesmo prêmio, deixando subentendido o quanto elas são interligadas. Não basta praticar uma delas isoladamente, desprezando as restantes. 

V — O Sermão da Montanha nos dias de hoje

Fundada a Igreja, com sua progressiva expansão e penetração nas capilaridades das sociedades daqueles temposDeus e sua lei foram colocados no centro da vida humana, numerosos foram os que passaram a praticar os conselhos evangélicos e uma nova era brilhou sobre a terra, a do Cristianismo. 

E hoje, o que é feito dessa era? O terrorismo ameaça, os seqüestros se alastram, o roubo de crianças prolifera, o comércio de órgãos humanos se avoluma, o crime, os vícios e o desrespeito se impõem; assistimos quotidiana­mente à expansão de ódios, guerras intestinas e internacionais, matanças de inocentes, ao desaparecimento gra­dual e progressivo do instituto da família... Enfim, quanto mais haveria para enumerar! Não estaremos nós vivendo agora dias piores do que os da Antiguidade?

E por que o Sermão da Montanha não produz, hoje, os mesmos efeitos de outrora? 

As raízes dos males atuais são idênticas às dos horrores da época de Jesus, que sinteticamente assim se poderiam enunciar: “a finalidade última do homem se cumpre nesta terra, por isso ele deve fruir todos os prazeres que a vida e este mundo lhe oferecem, pois Deus não existe”. Assim sendo, continua válido — e mais do que nunca — na sua integridade, o Sermão da Montanha. 

Qual, então, a razão dessa insensibilidade?

Falta à humanidade uma graça eficaz que a faça, como o Filho Pródigo, ter saudades da casa paterna e querer retornar às delícias das consolações de quem ama verdadeiramente a Deus, seus Mandamentos, e ao próximo como a si mesmo. 

Quiçá, depois de uma divina intervenção, melhor compreendendo e amando o Sermão da Montanha, a humanidade, convertida, abrace como nunca a perfeição e se torne realidade, assim, a profecia enunciada por Nossa Senhora em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!” ²

1) L.-Cl. Fillion, Vida de Nuestro Señor Jesucristo, Ed. Voluntad, Madrid, 1926, t. III, p. 56.
2) J. B. Weiss, Historia Universal, Vol. III, pp. 652-657.
3) Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, 30-31.
4) Veja-se, por exemplo, Ef 4, 13; e 1 Tess 4, 3 e 7.
5) Apud S. Tomás de Aquino, Catena Áurea, in Lucam.

Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

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