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Comentário ao Evangelho do XXXIII domingo do tempo comum
 

Liturgia da contrição ou da glória?
 

O Ano Litúrgico, síntese perfeita da existência terrena de Cristo, transmite-nos refrigério, luz e paz a cada passo, fazendo-nos participar das mais variadas graças. Nas leituras dos três últimos domingos deste mês, a Igreja coloca ao nosso alcance dádivas sobrenaturais especiais, propondo à nossa consideração a grandeza e a terribilidade do Juízo Final.
João Clá Dias
 

Naqueles dias, depois daquela tribulação, o sol escurecer-se-á e a lua não dará sua claridade, 25 e as estrelas cairão do céu e as potestades que estão nos céus serão abaladas.

26 Então verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória.

27 E enviará logo os seus Anjos e juntará os seus escolhidos dos quatro ventos, desde a extremidade da terra até a extremidade do céu.

28 Ouvi uma comparação tirada da figueira: Quando os seus ramos estão já tenros e as folhas brotam, sabeis que está perto o verão; 29 assim também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o Filho do Homem está perto, às portas.

30 Na verdade vos digo que não passará esta geração sem que se cumpram todas estas coisas.

31 Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar.

32 A respeito, porém, desse dia ou dessa hora, ninguém sabe, nem os anjos do Céu, nem o Filho, mas só o Pai (Mc 13, 24-32).

I — Início e fim do ciclo litúrgico
 

Com sabedoria divina e usando de insuperável arte, neste mês de novembro, a Igreja termina um ciclo litúrgico e dá início a outro. A abertura do novo ano será muito semelhante ao fecho do anterior: o primeiro domingo do Advento tomará o trecho do Evangelho de São Lucas (21, 25-36) a propósito da segunda vinda de Cristo e o XXXIII do Tempo Comum focalizará a mesma temática segundo São Marcos (13, 24-32).

Por que usa a Igreja de um método, à primeira vista, repetitivo, sendo seu tesouro insuperavelmente amplo e variado? Qualquer um a quem ocorrer esta pergunta logo perceberá provir ela de uma impressão superficial e errônea. Em realidade, a Encarnação e o Nascimento do Salvador tomam cores mais ricas ao serem focalizados na perspectiva do retorno de Cristo no fim do mundo, pois todos esses acontecimentos referem-se a um mesmo Ser e têm, portanto, profundas analogias entre si. O Natal e o Juízo Final constituem os extremos opostos de um só e imenso arco. Na Manjedoura, encontramos o Menino “que há de vir julgar os vivos e os mortos” (2 Tm 4, 1). No Vale de Josafá, veremos o próprio Inocente nascido na Gruta de Belém “voltar sobre as nuvens com grande poder e glória” (Mc 13, 26).

Ao surgir, Jesus dividiu a História em duas eras e, em seu retorno, finalizará o tempo e abrirá as portas da eternidade: “A Ele foram dados império, glória e realeza, e todos os povos, todas as nações e os povos de todas as línguas serviram-no. Seu do­mínio será eterno; nunca cessará e seu reino jamais será destruído” (Dn 7, 14). “O Senhor é rei e se revestiu de majestade, ele se cingiu com um cinto de poder” (Sl 92, 1). Este é, aliás, um trecho da primeira leitura da festa de Cristo Rei do Universo, que fará a ligação entre o Tempo Comum e o Advento.

A Realeza de Cristo
 

Esta festa foi estabelecida por Pio XI há menos de um século (1925). Entretanto, a consideração dessa divina realeza é tão antiga na piedade dos fiéis quanto a própria Liturgia. Referências a ela transbordam desde o Advento ao Tempo Pascoal, passando pela Natividade, Epifania e Paixão. A Teologia é rica em reflexões sobre essa temática, debaixo dos mais variados aspectos. Por exemplo, São Tomás, ao discorrer sobre a origem do poder real de Cristo, demonstra-nos que Jesus é Rei por direito de natureza, por sua dignidade de Cabeça de todos os que estão unidos a Ele, pela plenitude da graça habitual, títulos estes gratuitos, ou seja, independentes dos merecimentos alcançados pelo Homem-Deus (1). Porém, a Liturgia deste domingo focalizará sobretudo os méritos infinitos do Redentor enquanto fundamento de sua realeza sagrada, por direito de conquista (2). A própria antífona de entrada assim afirmará: “O cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A Ele glória e poder através dos séculos” (Ap 5, 12).
 

O Evangelho cantará: “Pilatos disse-Lhe então: ‘Portanto, Tu és rei?’. Jesus respondeu: ‘Tu o dizes, sou rei’” (Jo 18, 37).
 

E o Prefácio dará uma nota toda especial a essa realeza: “Submetendo ao seu poder toda criatura, entregará à vossa infinita majestade um reino eterno e universal: o reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz.”
 

Neste mês participaremos, portanto, de três domingos de grande importância para nossa vida espiritual. Antes de contemplarmos o belíssimo panorama que eles nos trazem, será de toda conveniência fazermos uma incursão pelos caminhos da Liturgia para, dessa forma, nos beneficiarmos ainda mais das graças a eles inerentes.
 

Liturgia e o avanço na vida espiritual

“A vida litúrgica — com suas cerimônias, que falam aos sentidos, com seus ritos pervadidos de gravidade e de profunda religião — é a educadora dos povos” (3).

A Igreja estabeleceu um ciclo litúrgico que abarca toda a vida de Nosso Senhor e se repete ao longo dos tempos.
 

Assim, a Liturgia acaba sendo uma reprodução da vida mortal de Jesus, a qual, em seus vários episódios, constitui um verdadeiro céu de maravilhosos mistérios e exemplos, uma prodigiosa fonte de graça.
“O ano litúrgico, expansão da vida sobrenatural para o Corpo Místico em seu conjunto, sustenta, ademais, a vida espiritual de cada um de seus membros” (4). Por isso é indispensável, a cada dia e, mais ainda, aos domingos, concentrarmos nosso espírito na contemplação das leituras e perspectivas que são propostas pela Liturgia, tal qual nos ensina o Catecismo:
 

“A mãe Igreja deseja ardentemente que todos os fiéis sejam levados àquela plena, consciente e ativa participação nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da liturgia exige e à qual, por força do batismo, o povo cristão, ‘geração escolhida, sacerdócio régio, gente santa, povo de conquista’ (1 Pd 2, 9), tem direito e obrigação” (CIC — 1141).

II — O Juízo Final, último ato da obra redentora de Cristo

O Fim do Mundo: júbilo ou pavor?

Focalizemos alguns aspectos essenciais e mais salientes do XXXIII Domingo do Tempo Comum, no qual a Igreja visa que participemos dos benefícios sobrenaturais que os últimos fiéis da História receberão.
A cena que o Evangelho nos propõe é a da catástrofe escatológica seguida da vinda triunfal do Senhor, e tanto poderá ela ser meditada sob um prisma de júbilo e esperança, como de pavor e horror.

Na Igreja nascente, muito vincada em sua formação pela doutrina de São Paulo, os fiéis foram conduzidos a se extasiar com os aspectos triunfais daqueles dias vindouros, conforme podemos comprovar por este trecho da Epístola aos Tessalonicenses: “O mesmo Senhor, ao mando (de Deus), à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, descerá do céu; os que morreram em Cristo, ressuscitarão primeiro; depois nós os que vivermos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles sobre as nuvens ao encontro de Cristo, nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor” (1 Tes 4, 16 e 17). Era a divina didática do Espírito Santo, muito adequada àqueles tempos de perseguição e martírio, durante os quais os fiéis necessitavam de gloriosas e animadoras esperanças.

Bem mais tarde, à medida que a Cristandade assistia erguerem-se as muralhas de seus castelos e brilharem os vitrais de suas catedrais, o homem medieval, em função da contingência de um equilíbrio de virtudes, precisava apaixonar-se pela Cruz de Cristo e sentir dor pelos seus pecados, que causaram os tormentos da Paixão do Senhor. O Preciosíssimo Sangue de Cristo, com força e dinamismo divinos, frutificava dia após dia em novas realizações, abrindo os caminhos para um futuro promissor. Daí o fato de o Espírito Paráclito inspirar aquela era histórica a tremer, chorar e gemer diante das perspectivas postas por São Marcos no Evangelho em questão.

Qualquer que seja o mirante — terrível ou maravilhoso — no qual nos coloquemos para analisar a Liturgia do XXXIII Domingo do Tempo Comum, o certo é que a obra redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo não atingirá sua plenitude enquanto não se realizar o Juízo Final. Ela se iniciou com a vida, paixão e morte de Cristo, perpetua-se pela distribuição das graças conquistadas através dos sacramentos e desfechará no julgamento da humanidade, em função da correspondência aos benefícios recebidos.

Eis aí, em rápidas palavras, o panorama litúrgico-histórico para melhor se acompanhar a seqüência desses três importantes do­mingos, a começar pelos dois pri­meiros versículos de Marcos: “Naqueles dias, depois daquela tribulação, o sol escurecer-se-á e a lua não dará sua claridade, e as estrelas cairão do céu e as potestades que estão nos céus serão abaladas” (vv. 24 e 25).

Cristo, Juiz dos mortos e dos vivos

Logo a seguir, no versículo 26, Marcos procura dar ênfase ao “grande poder e glória” do “Filho do homem (ao) voltar sobre as nuvens”. Jesus possui duas naturezas: a humana e a divina. Pela divina, é Juiz desde toda eternidade. Mas como se poderá compreender a origem de seu humano poder de julgar?

Consideremos inicialmente que Jesus, por sua Paixão e Morte, tornou-Se nosso Salvador. Ensina São Tomás que seu poder de juiz universal decorre justamente dessa nossa libertação da morte e do pecado, operada por Ele através de sua natureza humana: “Por isso há de se dizer que, segundo a natureza humana, (Cristo) nos libertou tanto dos males espirituais como dos temporais, e nos obteve os bens espirituais e eternos. É natural que quem adquiriu os bens, os distribua. Esta distribuição exige um juízo para que cada um os receba conforme seu grau. Portanto, Cristo, segundo sua humana natureza, foi constituído por Deus juiz sobre os homens que salvou. (...) Cristo se humilhou até o extremo ao submeter-se a um juiz humano que O julgou injustamente. Como prêmio disto, Deus O constituiu juiz dos mortos e dos vivos” (5).

Foi o próprio Jesus Quem nos disse: “Aquele que se exaltar será humilhado, e o que se humilhar será exaltado” (Mt 23, 12).

O glorioso Juiz: gáudio para os bons, tristeza para os maus

Poder-se-ia perguntar se não seria melhor, para castigo dos maus, o Salvador aparecer no dia do Juízo sem exteriorizar todo seu “grande poder e glória” (v. 26). São Tomás de Aquino, com sua insuperável clareza, discorre sobre o assunto, inicialmente provando a necessidade de ser o Juiz Eterno anunciado por acontecimentos grandiosos: “Cristo aparecerá para julgar os homens, revestido de glória, em virtude da autoridade própria de juiz. Ora, a dignidade do poder judiciário deve ser precedida de certos sinais que despertem reverência e sujeição. Por isso, o advento de Cristo, como juiz, será precedido de muitos sinais, que advertirão os homens a terem os corações dispostos a submeter-se à sentença do juiz prestes a chegar e a se prepararem para o juízo” (6).

Em face dessa perspectiva, colocar-se-ia uma questão: se assim for, terão os maus, pelo menos durante o Juízo, a possibilidade de ver a Deus face a face? Responde-nos São Tomás: “Se os maus vissem a Deus em sua própria natureza, ou seja, na sua divindade, teriam já com isto um prêmio, do qual se tornaram indignos pelo pecado. É, portanto, muito conveniente que Deus julgue, não segundo sua natureza própria, mas segundo sua natureza humana assumida. Assim poderá julgar os bons e os maus, sem que estes últimos recebam prêmio algum.

“Pertencendo o poder judicial de Cristo ao seu triunfo e exaltação, assim como a glória da ressurreição, aparecerá no Juízo não de forma humilde, a qual pertence ao mérito, mas gloriosa, que é própria do prêmio. Por isso se diz no Evangelho (Mt 24, 30) que se verá vir o Filho do homem sobre as nuvens com grande poder e majestade” (7).

Não nos esqueçamos de que esse glorioso Juiz é aquele mesmo Menino apresentado por Maria ao velho Simeão, o qual fez a profecia: “Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição” (Lc 2, 34). Ou seja, será o próprio Jesus, em sua glória, motivo de júbilo para os bons e de tristeza e pavor para os maus.

A ressurreição dos corpos

São Marcos recolhe, além do mais, a afirmação do Mestre: Ele “enviará logo os seus Anjos e juntará os seus escolhidos” (v. 27), numa patente referência à ressurreição dos corpos. Outro fato grandioso. Nesse dia, cada um retomará o próprio corpo na sua integridade, conforme nos ensina São Tomás na Suma Teológica: “O homem há de ressurgir perfeito, pois se reconstituirá para receber a sua última perfeição. Portanto, todos os membros que o corpo humano tiver nesta vida hão de reconstituir-se na ressurreição” (8).

Ademais, em outra obra São Tomás afirma: “Como o homem há de receber pena ou prêmio, segundo os atos executados durante a vida, é conveniente que os homens conservem os mesmos membros com os quais serviram ou ao pecado ou à santidade, para que assim sejam castigados ou premiados os mesmos que pecaram ou mereceram” (9).

III - Ainda é tempo de arrependimento e conversão

Este mundo, manchado pelos pecados da humanidade, terá de ser purificado pelo fogo antes mes­mo do Juízo Final. Que magnífico espetáculo nos oferece a Liturgia desses três domingos consecutivos! Excelente ocasião para meditarmos em nossos novíssimos, con­forme nos aconselha o Eclesiástico: “Memorare novissima tua, et in aeternum non peccabis” — “Lembra-te, homem, dos teus novíssimos, e não pecarás jamais.” (7, 40). Óti­ma oportunidade para analisarmos nosso comportamento diante das graças recebidas, desde o nosso Batismo até agora. Fomos fiéis a todos os convites feitos pelo Espírito Santo no interior de nossas almas? Se nós, hoje, devêssemos nos apresentar diante do Juízo de Deus, certamente tremeríamos por tantos caprichos e desordens que emperram nosso progresso na vida espiritual. Felizmente, ainda há oportunidade para bons propósitos e mudança de vida.

Este é um dos objetivos da Liturgia de hoje. Não sabemos qual será o dia de nosso Juízo Particular, nem do Juízo Final (10). A morte se avizinha de nós a cada segundo, o pecado ganha terreno em nossos hábitos, nosso coração vai se endurecendo passo a passo e o livro diário de nossa vida vai sendo escrito por Deus sem que um só mínimo ato, pensamento ou desejo seja por Ele negligenciado.

Esse diário minucioso e implacável será objeto do julgamento de cada homem na hora de sua morte, e proclamado para conhecimento de toda a humanidade e dos Anjos no dia do Juízo Final. Resta-nos ainda tempo de misericórdia e de perdão, saibamos humilhar-nos e rogar especiais graças de conversão, para assim apagarmos, pelo arrependimento, os horrores que nos encherão de vergonha naquele dia de ira, calamidade e miséria.

“Bem-aventurado o homem que recebeu o dom do temor de Deus”, diz a Sagrada Escritura (Eclo 25, 15). Mais adiante, acrescenta o Eclesiástico: “Se não te atas fortemente ao temor de Deus, pronto será derrubada tua casa” (27, 4). O ano litúrgico é pleno da suavidade, doçura e mansidão de Cristo, mas não devemos menosprezar o temor, especialmente nestes domingos em que são focalizados os fenômenos escatológicos.

Conforme nos ensina o Cardeal J. H. Newman, “o temor e o amor devem ir juntos; continuai temendo, continuai amando até o último dia de vossa vida (...) deveis saber o que significa semear aqui embaixo com lágrimas, se quereis colher com alegria no além” (11).

E Santo Agostinho, em seu sermão sobre a humildade e o temor de Deus, comenta: “Bem-aventurada a alma que teme a Deus, está forte contra as tentações do diabo. Bem-aventurado o homem que persevera no temor (Prov. 28, 14) e a quem foi dado ter sempre diante dos olhos o temor de Deus.

Quem teme o Senhor se aparta do mau caminho e dirige seus passos pela senda da virtude. O temor de Deus torna o homem precavido e vigilante para não pecar. Onde não há temor de Deus, reina a vida dissoluta.” ²

1) Suma Teológica, III, qq. 7 e 59.
2) Suma Teológica, III, qq. 48-49.
3) Ernesto Mura, Il Corpo Mistico di Cristo, Ed. Paoline, Alba, 1949, p. 327.
4) Idem, p. 343.
5) Opúsculo 13, 241.
6) Suma Teológica - Suplemento, q. 73, a.1.
7) Opúsculo 13, 241.
8) Suma Teológica - Suplemento, q. 80, a. 1
9) Opúsculo 13, 157.
10) Cf. Mc 13, 28-33.
11) Sermões Paroquiais, Sermão 24.

Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

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