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Comentario do Evangelho do 4º domingo da Páscua
 

Uma das mais belas simbologias empregadas pelo Divino Mestre

“O Senhor é meu Pastor”
 

A propósito da cura do cego de nascença, e da polêmica provocada por ela entre os fariseus, Jesus se revelou como o Bom Pastor, que arrisca a vida por suas ovelhas. Foi esta uma das ocasiões nas quais Ele exprimiu de modo mais tocante seu amor infinito por nós.
João Clá Dias
 

Deus, na sua inesgotável sabedoria, dispôs em perpétua ordem e harmonia todos os seres, fazendo muitas vezes os inferiores símbolos dos superiores. Assim, no sexto dia de sua obra, criou entre os animais a espécie ovina, com o intuito de, no futuro, o cordeiro servir de título ao Redentor, o Cordeiro de Deus. Conferiu características próprias aos rebanhos de ovelhas, assim como ao relacionamento entre estas e seus pastores, para facilitar a compreensão do amor entre o Fundador da Igreja e seus fiéis.

Na civilização de hoje, demasiadamente industrial e planificada, causa agradável surpresa encontrar pelos campos rebanhos que nos recordam aquela sociedade pastoril dos primeiros séculos da História. Alheios às transformações técnicas e sociais, esses animais continuam a se comportar como outrora. Impressiona obser­var sua sensibilidade à voz ou assobio de seu guia.

Certa ocasião, estando em um ambiente campestre nas cercanias do Palácio do Escorial, não muito distante de Madri (Espanha), assisti a um “sermão” dirigido por um pastor a seu rebanho. As ovelhas ouviam com atenção exemplar as admoestações sobre os cuidados que deveriam ter durante a permanência naquele local. Terminada a “pregação”, ele as dispersou com um simples bater de palmas. Bem mais tarde, convocou-as todas pela voz — chegando a chamar algumas pelo nome próprio — e as fez retomar a estrada, rumo ao seu redil. O fato me emocionou e me fez lembrar o Evangelho que devemos aqui analisar: “As ovelhas o se­guem, porque conhecem a sua voz” (Jo 10, 4).
 

Pedagogia divina

Entre os vários instintos do homem, o mais forte e importante é o de sociabilidade. Aristóteles afirmava que, por natureza, o ser humano é um animal político, ou seja, sociável. A apetência (e a necessidade) dos homens de se relacionarem uns com os outros leva-os a se unirem, dando seqüência ao plano divino da Criação, pois Deus nos deu esse instinto precisamente para estimular a constituição da vida em sociedade. Mas não foi esta a única razão; antes de tudo, tinha Ele em vista seu próprio desejo de entrar em contato com as almas.
 

Conforme explica o Catecismo da Igreja Católica, Deus “quer comunicar sua própria vida divina aos homens, criados livremente por Ele, para fazer deles, no seu Filho único, filhos adotivos. Ao revelar-se, Deus quer tornar os homens capazes de responder-Lhe, de conhecê-Lo e de amá-Lo bem além do que seriam capazes por si mesmos” (nº 52). Para levar adiante o “projeto divino da Revelação”, a “pedagogia divina” consistiu, desde os primórdios da humanidade, em preparar o homem por etapas para esse relacionamento com Ele, cujo ápice ocorreria na encarnação, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. idem, nº 53).
 

Dessa pedagogia fazia parte essencial a linguagem simbólica. Quiçá não tenha Deus escolhido melhor signo para exprimir os vínculos a serem estabelecidos entre Jesus e nós do que a figura do pastor com seu rebanho.
Já nos primórdios do Antigo Testamento, há uma insistência na figura do pastor (cf. Gn 4, 4 e 20), na pessoa de Abraão (Gn 12, 16), de Lot (Gn 13, 5) e do próprio Rei Davi (1 Sam 17, 34-35). Aos poucos, a condução do rebanho vai se tornando símbolo dos guias do povo de Deus, a ponto de a Escritura referir-se a eles com estas palavras: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com inteligência e sa­bedoria” (Jr 3, 15). Ou como neste trecho: “Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; dize-lhes, a esses pastores, este oráculo: eis o que diz o Senhor Javé: ai dos pastores de Israel que só cuidam do seu próprio pasto. Não é seu rebanho que devem pastorear os pastores? Vós bebeis o leite, vestis-vos de lã, matais as reses mais gordas e sacrificais, tudo isso sem nutrir o rebanho. Vós não fortaleceis as ovelhas fracas; a doente, não a tratais; a ferida, não a curais; a transviada, não a reconduzis; a perdida, não a procurais; a todas tratais com violência e dureza. Assim, por falta de pastor, dispersaram-se minhas ovelhas, e em sua dispersão foram expostas a tornarem-se presa de todas as feras. Minhas ovelhas vagueiam em to­da parte sobre a montanha e sobre as colinas, elas se acham espalhadas sobre toda a superfície da terra, sem que ninguém cuide delas ou se ponha a procurá-las” (Ez 34, 2-6).
 

Porém, a figura do Pastor toma a plenitude de seu significado no Ser por excelência, o próprio Deus: “Eis o que diz o Senhor Javé: vou castigar esses pastores, vou reclamar deles as minhas ovelhas, vou tirar deles a guarda do rebanho, de modo que não mais possam fartar-se a si mesmos; arrancarei minhas ovelhas da sua goela, de modo que não mais poderão devorá-las. Pois eis o que diz o Senhor Javé: vou tomar Eu próprio o cuidado com minhas ovelhas, velarei sobre elas. Como o pastor se inquieta por causa de seu rebanho, quando se acha no meio de suas ovelhas tresmalhadas, assim me inquietarei por causa do meu; Eu o reconduzirei de todos os lugares por onde tinha sido disperso num dia de nu­vens e de trevas. Eu as recolherei dentre os povos e as reunirei de diversos países, para reconduzi-las ao seu próprio solo e fazê-las pastar nos montes de Israel, nos vales e nos lugares habitados da região. Eu as apascentarei em boas pastagens, elas serão levadas a gordos campos sobre as montanhas de Israel; elas repousarão sobre as verdes relvas, terão sobre os montes de Israel abundantes pastagens. Sou Eu que apascentarei minhas ovelhas, sou Eu que as farei repousar — oráculo do Senhor Javé. A ovelha perdida, Eu a procurarei; a desgarrada, Eu a reconduzirei; a ferida, Eu a curarei; a doente, Eu a restabelecerei, e velarei sobre a que estiver gorda e vigorosa. Apascentá-las-ei todas com justiça. (...) E vós, minhas ovelhas, vós sois homens, o rebanho que apascento. E Eu, Eu sou o vosso Deus — oráculo do Senhor Javé” (Ez 34, 10-16; 31).

Jesus, o Bom Pastor
 

Por fim apareceu nos céus da História o Pastor arquetípico, o Bom Pastor: “Eu irei em socorro de minhas ovelhas para poupá-las de serem atiradas à pilhagem; e julgarei entre ovelha e ovelha: Para pastoreá-las suscitarei um só pastor (...). Será ele quem as conduzirá à pastagem e lhes servirá de pastor” (Ez 34, 22-23).
 

Jesus é o Pastor que deu a vida por seu rebanho; ademais, sempre disposto a ir atrás da ovelha perdida e, encontrando-a, retornar alegre e feliz com ela sobre os ombros; a tirá-la do valo, ainda que em dia de sábado. Quem de nós pode afirmar nunca ter sido objeto da busca do Bom Pastor, às vezes até em circunstâncias trágicas? Quem alguma vez não se sentiu ovelha desgarrada, mas nos ombros de Jesus, sendo reconduzida ao aprisco?
É nesta perspectiva que se insere o Evangelho do 4º Domingo da Páscoa:
 

“Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor expõe a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, porém, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, quando vê que o lobo vem vindo, abandona as ovelhas e foge; o lobo rouba e dispersa as ovelhas. O mercenário, porém, foge, porque é mercenário e não se importa com as ovelhas. Eu sou o Bom Pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem a mim, como meu Pai me conhece e eu conheço o Pai. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor. O Pai me ama, porque dou a minha vida para a retomar. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir. Tal é a ordem que recebi de meu Pai” (Jo 10, 11-18).
 

As circunstâncias: a cura do cego de nascença

Essas palavras se prendem a um episódio antecedente, denso de emocionante carga simbólica. Inicia-se ao incidir o olhar de Jesus sobre um cego de nascimento. Era comum julgarem os judeus haver uma relação entre as enfermidades e os pecados cometidos pelo doente, ou por seus parentes. Por isso perguntaram os discípulos ao Senhor: “Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo 9, 2). A resposta firme de Jesus e o desenrolar dos acontecimentos subseqüentes deitarão luz para melhor entendermos o Evangelho de hoje: “Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus” (Jo 9, 3). Tendo feito essa profética afirmação, tomou a iniciativa de curar o cego.
 

Como não podia deixar de ser, o portentoso milagre causou comoção entre todos os conhecidos do miraculado, levando-os a desejarem encontrar “aquele homem que se chama Jesus” (Jo 9, 11).
O burburinho popular cresceu a ponto de conduzirem o beneficiado diante dos fariseus. Narrado o ocorrido, constatou-se ter sido realizada a cura em dia de sábado. Isto configurava um grande crime, condenado pelos fariseus. Um violador da lei do sábado — portanto, um pecador — não podia ser de Deus! Eis, finalmen­te, encontrada uma grave acusação contra aquele Homem que tanto os perturbava. Todavia, esta conclusão entrava em choque frontal com uma pergunta levantada por outros fariseus: como explicar que um tal prodígio pudesse ser praticado por um pecador?
 

Em meio à dissensão perplexitante, a esperança de acharem uma saída fez os maus se voltarem para o próprio ex-cego. Quiçá pudesse este dizer algo que desabonasse inteiramente Jesus. Entretanto, iludiam-se por completo. Aquela era uma ovelha que conhecia a voz de seu Pastor, e assim não se deixava enganar pelos ladrões e salteadores. Convicto, afirmou ser Nosso Senhor um profeta. Embaraçados, os inquiridores resolveram interrogar os pais daquele homem, na esperança de provarem ter tido sempre vistas normais. Afinal, desqualificar a testemunha é uma saída bem conhecida daqueles que se encontram em apuros. Contudo, mais uma vez não conseguiram seu intento, pois o casal confirmou ser seu filho cego de nascença, e sabiamente evitou quaisquer outros comentários sobre o acontecido: “[Eles] temiam os judeus, pois os judeus tinham ameaçado expulsar da sinagoga todo aquele que reconhecesse Jesus como o Cristo. Por isso é que seus pais responderam: Ele tem idade, perguntai-lho” (Jo 9, 22-23).
 

O interrogatório final, em um ambiente de ansiedade e fraude, acabou despertando indignação dos fariseus, por esbarrarem na robustez de fé e honestidade do ex-cego. Havendo eles declarado não saberem de onde era Jesus, “respondeu aquele homem: O que é de admirar em tudo isso é que não saibais de onde ele é, e entretanto ele me abriu os olhos. Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem lhe presta culto e faz a sua vontade. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se esse homem não fosse de Deus, não poderia fazer nada. Responderam-lhe eles: Tu nasces­te todo em pecado e nos ensinas?... E expulsaram-no” (Jo 9, 30-34).

A Igreja é o redil, cuja porta é Cristo
 

Após essa injusta conclusão de seu inquérito, não tardou o antigo cego a se reencontrar com Jesus. Este, conhecendo desde toda a eternidade aqueles fatos, perguntou-lhe se acreditava no Filho de Deus. Diante de não poucos curiosos, o tal homem não só afirmou sua crença em Nosso Senhor, mas também prosternou-se diante d’Ele e O adorou.
Essa bela e virtuosa atitude deixou emudecido o público presente. O Divino Mestre aproveitou a ocasião para tirar todo o proveito do episódio, e afirmou: “Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos” (Jo 9, 39).

A partir desse instante, entrando em contenda aberta com os fariseus, Jesus passa a desenvolver a parábola narrada no Evangelho de hoje. Começa por referir-se a um hábito comum, bastante conhecido entre os judeus: o ladrão não entra pela porta do aprisco, mas “sobe por outro lugar” (Jo 10, 1). O pastor, pelo contrário, utiliza-se tão-só dessa porta, fazendo ouvir sua voz pelas ovelhas.
Não havendo os fariseus entendido essa alegoria, o Divino Mestre declarou ser, Ele mesmo, a porta do aprisco.

Comentando com brilho esse trecho do Evangelho, a Constituição Dogmática Lumen Gentium afirma: “A Igreja é o redil, cuja porta única e necessária é Cristo. É o rebanho, do qual o próprio Deus anunciou que seria o Pastor, e cujas ovelhas, embora governadas por pastores humanos, são incessantemente conduzidas às pastagens e alimentadas pelo próprio Cristo, bom Pastor e Príncipe dos pastores, que deu sua vida pelas ovelhas” (LG 6).

Um só rebanho e um só Pastor
 

Pelos antecedentes e por todo o contexto no qual ocorre, a presente parábola leva-nos a compreender a divina excelência do Bom Pastor. Jesus não só conhece como efetivamente ama suas ovelhas desde toda a eternidade. Ele as criou, uma a uma, e as redimiu com seu próprio sangue, elevando-as a participarem de sua vida. Ademais, deixou-se como alimento na Eucaristia até a consumação dos séculos. Seu trato para com o rebanho atinge extremos inimagináveis até mesmo pelo mais perfeito dos Anjos.

Através da Fé e em virtude da Graça, suas ovelhas, por reciprocidade, conhecem-No, n’Ele esperam e operosamente O amam. Assim, Bom Pastor e ovelhas relacionam-se de maneira semelhante ao convívio existente entre as três pessoas da Santíssima Trindade, em um só Deus. Essa é a principal razão de seu desejo-profecia: “Haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10, 16).

Através da entrega de sua própria vida, sobre a qual Ele tem um poder absoluto, obterá Jesus uma unidade entre Pastor e redil.

Também nós devemos ser pastores...

Dispôs Deus que as figuras do cordeiro, do rebanho e do pastor facilitassem ao homem a compreensão da necessidade do apostolado. Em sua substância simbólica, elas reforçam princípios enunciados ao longo da Sagrada Escritura: “E impôs a cada um deveres para com o próximo” (Ecli 17, 12).

Em relação a Jesus, somos cordeiros; é nossa obrigação moral e religiosa reconhecer-Lhe a voz e seguir-Lhe os passos. Mas somos também muitas vezes chamados a representar o papel de pastores para com nossos irmãos, dever de caridade, como nos ensina São Pedro: “Cada um, segundo o que recebeu, comunique-o aos ou­tros, como bons dispenseiros da multiforme graça de Deus” (1 Pe 4, 10). Caso assim não procedamos, seremos julgados como o servo mau e preguiçoso da parábola dos talentos (cf. Mt 25, 14-30).

O trecho do Evangelho que acabamos de analisar constitui uma premente conclamação para a participação efetiva, dedicada e entusiasmada de todos os fiéis nas tarefas de apostolado. A obrigação de evangelizar não é exclusiva dos religiosos, mas também de todo batizado. Por este sacramento, cada um de nós é incorporado a uma sociedade espiritual — a Santa Igreja Católica — regida pela Comunhão dos Santos, recebendo uma vocação geral de apostolado e uma missão individual de expandir o Reino de Cristo. Mais especialmente encontram-se concernidas nisto as associações e movimentos católicos.

Para a realização dessa atividade, o campo de trabalho mais indicado é a paróquia. Em outros termos, nada mais louvável e eficiente do que contribuir para o revigoramento de nossas paróquias, esforçando-nos por incluir neste âmbito todos aqueles que estejam a nosso alcance.

Recorramos à Mãe do Bom Pastor

“Maria é a estrela na nova evangelização”, lembra-nos sempre o Papa João Paulo II. Quem quiser ter sucesso nesse sublime empreendimento de atrair seus próximos para o aprisco de Jesus Cristo, não pode deixar de colocar seus trabalhos e sua própria pessoa sob a proteção e a orientação da Mãe do Bom Pastor.

Nas catacumbas de Santa Priscila, em Roma, pode-se ver, bem-conservada, uma pintura que representa Nosso Senhor como o Bom Pastor. Significativamente, leva Ele aos ombros a ovelha perdida e caminha em direção a sua Mãe, em cujas mãos vai entregá-la.

Peçamos a esse Coração Maternal e Imaculado que nos conduza ao Bom Pastor, e assim possamos cumprir com santidade nossos deveres de apostolado para com nossos irmãos.

Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

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