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EVANGELHO

1 Então, Jesus falou às multidões e aos seus discípulos, dizendo: 2 "Sobre a cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. 3 Observai, pois, e fazei tudo o que eles vos disserem, mas não imiteis as suas ações, porque dizem e não fazem. 4 Atam cargas pesadas e impossíveis de levar, e as põem sobre os ombros dos outros homens, mas nem com um dedo as querem mover. 5 Fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens. Trazem mais largas as filactérias, e mais compridas as franjas dos seus mantos. 6 Gostam de ter os primeiros lugares nos banquetes, e as primeiras cadeiras nas sinagogas, 7 das saudações na praça, e de serem chamados rabi pelos homens. 8 Mas vós não vos façais chamar rabis, porque um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. 9 A ninguém chameis pai sobre a terra, porque um só é o vosso Pai, O que está nos Céus. 10 Nem façais que vos chamem mestres, porque um só é o vosso Mestre, Cristo. 11 Quem entre vós for o maior, seja vosso servo. 12 Aquele que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado." (Mt 23, 1-12).

O crescente ódio dos fariseus contra Jesus levou-os a pedirem sua morte
(Os fariseus acusando Nosso Senhor, por Duccio di Buoninsegna)

"Vós tendes por pai o diabo..." (Jo 8, 44)

Assim como a santidade contém todas as virtudes, talvez se pudesse dizer que o farisaísmo abarca todos os pecados. Para nos resguardar contra o "fermento dos fariseus", mal de todas as eras, Jesus os invectiva de forma implacável, chegando a ponto de chamá-los "filhos do diabo".

Mons. João Clá Dias, E.P.

I - Ódio dos fariseus contra o Divino Mestre

O demônio, ente de natureza angélica, foi criado por Deus na verdade. Nesta ele se conduzia em seu estado de prova, que consistia em restituir ao Criador o ser, os dons e as qualidades d'Ele recebidos, prestando- Lhe um justo culto de latria. Foi exatamente o caminho que, a certa altura, esse anjo de luz resolveu abandonar por livre vontade, penetrando nas trevas da morte, do pecado e da mentira. Foi ele o primeiro a abrir o passo na ruptura com a ordem do universo e, sobretudo, com o próprio Deus, liderando a oposição contra o Supremo Legislador. Revoltou-se e rejeitou o convite a ser luz em Deus, para ser mentira em si mesmo; por pura presunção, quis ser deus por si próprio, deixando de sê-lo por participação; preferiu a adoração de sua natureza tirada do nada, para assim obter o eterno desprezo de Deus.

Esse é o diabo! E os fariseus são seus filhos, segundo a voz infalível do Divino Mestre.

Antagonismo entre Jesus e os fariseus

Os Evangelhos se encontram embebidos de ponta a ponta de uma radical oposição entre Jesus e os fariseus. Esse antagonismo tem seu início já com o Precursor, tão procurado pelos judeus por sua fama de santidade e de profetismo. Assim tratou João Batista os fariseus (como também os saduceus), antes mesmo do aparecimento do Messias: "Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir à ira que vos ameaça? Não vos justifiqueis interiormente, dizendo: Temos Abraão por pai!" (Mt 3, 7.9).

De sua parte, o próprio Jesus - ao declarar os parâmetros, doutrinas e metas apostólicas da ação a ser por Ele desenvolvida - tornou patente a impossibilidade de uma aproximação ou harmonia com os fariseus. O sermão das bem-aventuranças (1) coloca em equilíbrio claro e definido os princípios ético-morais adotados por Jesus, em sua maioria em contraposição aos dos fariseus. Seria ingenuidade imaginarmos ter sido a inveja a causa do ódio deicida dos fariseus contra nosso Redentor. Bem poderá ter concorrido, como um dos componentes da sanha demolidora, esse vício capital, mas a dissensão teve como base duas concepções diferentes, e até excludentes, de caráter religioso-político.

Ególatras e aproveitadores, os fariseus rejeitam a Deus

Os fariseus haviam reduzido a religião a uma escrupulosa observância de micro-preceitos, em detrimento da prática da verdadeira Lei: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e desprezais os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade! (...) Guias cegos, que filtrais um mosquito e engolis um camelo!" (Mt 23, 23-24). E isso se dava, entre outras razões, devido à grande presunção na qual estavam submersos, como é fácil de notar na parábola do fariseu e do publicano, elaborada pelo Divino Mestre a respeito de "uns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros" (cf. Lc 18, 9-14). A eles não era alheia tampouco a avareza. Para fazermos uma idéia aproximada desse fundo de maldade, basta relembrarmos a parábola do administrador infiel, ao fim da qual relata-nos o Evangelista: "Ora, os fariseus, que eram amigos do dinheiro, ouviam todas estas coisas e troçavam d'Ele. Jesus disse-lhes: ‘Vós sois aqueles que pretendeis passar por justos diante dos homens, mas Deus conhece os vossos corações; o que é excelente segundo os homens é abominação diante de Deus'" (Lc 16, 14-15). Por terem se constituído como centro de suas próprias preocupações, por serem ególatras e, portanto, por terem dado as costas a Deus, abusavam dos poderes espirituais, deles se aproveitando para entesourar bens materiais.

Essa rejeição a Deus, que é tão recriminada por Jesus, constitui um dos grandes pecados dos fariseus: "Sei que não tendes em vós o amor de Deus. Vim em nome de meu Pai, e vós não Me recebeis. Se vier outro em seu próprio nome, recebê-lo-eis" (Jo 5, 42-43). E por não praticarem o amor a Deus, também não o praticam em relação ao próximo: "Se vós soubésseis o que quer dizer: ‘Quero misericórdia e não sacrifício', jamais condenaríeis inocentes" (Mt 12, 7). Mais ainda transparece essa carência de bondade dos fariseus na parábola do bom samaritano, na qual o levita e o sacerdote são condenados pela falta de misericórdia com seu irmão, enquanto o samaritano foi apontado como modelo a seguir: "Vai e faze o mesmo" (Lc 10, 30-37).

Invectivas de Jesus

As discussões de Jesus com os fariseus foram se tornando cada vez mais tensas e increpantes. Ao longo delas, Ele os desqualificava de forma violenta, chamando-os de filhos do diabo e imitadores de seu pai, homicidas e ladrões, víboras, e várias vezes de hipócritas (2). Sobre este último qualificativo, e mais especificamente a respeito das recriminações transcritas no capítulo 23 de Mateus, alguns exegetas chegam a classificá-lo como o sermão das oito maldições, em contraposição ao das oito bem-aventuranças. Segundo esses exegetas, com um sermão Mateus abre, no seu Evangelho, a narração da vida pública de Jesus, e com o outro o encerra.

A cada passo, Jesus os vai colocando em contradição com eles mesmos a propósito de suas atitudes e doutrinas. Aliás, sempre que Deus deixa de constituir o centro das preocupações, pensamentos e ações de alguém, ou de um grupo social, pouco tardará para surgirem as contradições, pois quando falha a premissa maior, comprometida está a substância do silogismo. Seria por demais extenso recordar os triunfos de Jesus sobre os fariseus, um a um. É suficiente trazer à tona o caso da cura de um hidrópico em dia de sábado, na residência de um fariseu. Nosso Senhor os invectiva: "Qual de vós, se o seu filho ou seu boi cair num poço, não o tirará imediatamente ainda que seja em dia de sábado?" (Lc 14, 5).

Essas atitudes tão categóricas e peremptórias de Jesus contra os fariseus têm inteiro fundamento, pois eram eles verdadeiros lobos revestidos de pastores. Não se cansavam de caluniar o Divino Mestre, devotando-Lhe uma forte antipatia. Acusavam-nO de estar possuído pelo demônio, de se deixar envolver por pessoas de má vida, de quebrar a lei do sábado, etc. Ademais, não poupavam esforços para deturpar os fatos e as palavras proferidas pelo Divino Mestre, como, por exemplo, no caso da expulsão do demônio que tornava surdo e mudo um pobre homem. Caluniavam-nO, afirmando que o exorcizara e o curara em virtude do poder de Belzebu (3).

Fúria dos fariseus

Essa oposição, sorrateira a princípio, foi paulatinamente se tornando cada vez mais patente, categórica e pública, a ponto de produzir uma cisão na opinião geral do povo judeu. Por um lado, a maioria se perguntava se de fato não era Jesus o Messias, julgando impossível alguém ser capaz de realizar mais milagres do que Ele (4). Por outra parte, esse crescente murmúrio levou os fariseus a apoiarem os príncipes dos sacerdotes quando estes decretaram a prisão do Salvador. Entretanto, os próprios guardas afirmavam: "Nunca homem algum falou como este homem" , e não quiseram prendê-lO (Jo 7,46).

Se o ódio dos fariseus contra Jesus se manifesta tão radical no fim do capítulo sétimo do Evangelho de São João, o término do oitavo é ainda mais carregado: "Então pegaram em pedras para Lhe atirarem; mas Jesus ocultou-Se e saiu do templo" (Jo 8, 59). No capítulo seguinte, depois da cura de um cego, os fariseus enfurecidos lançam este último fora da sinagoga, aos insultos, acusando-o de ser discípulo de Jesus. O capítulo 10 nos relata uma nova tentativa frustrada de prender o Divino Mestre. O auge dessa cólera se verifica após a ressurreição de Lázaro: "Desde aquele dia tomaram a resolução de O matar" (Jo 11, 53)

Na Parábola do Bom Samaritano, o levita
e o sacerdote são condenados pela falta de
misericórdia com seu irmão (vitral da Igreja
de Saint Patrick, Nova Orleans)
François Boulay

Dir-se-ia que, ao crucificarem Jesus, estariam satisfeitos. Esse não foi o resultado. Príncipes dos sacerdotes e fariseus exigiram de Pilatos uma vigilância cerrada junto ao túmulo, a fim de que fosse evitado o roubo do corpo de Jesus, e em seguida selaram a pedra do sepulcro, deixando ali dois guardas.

Em seus traços gerais, esta é a realidade do ódio dos fariseus contra o Divino Mestre, que é indispensável termos em vista para bem apreciarmos o Evangelho de hoje.

 

II - Comentário ao Evangelho

1 Então, Jesus falou às multidões e aos seus discípulos, dizendo:

Desde sua metade, o capítulo vinte e dois (vs. 15-46) relata uma exposição doutrinária realizada por Jesus, que maravilhou a quantos O ouviam ao responder algumas perguntas expressas por saduceus e fariseus. Por isso, este primeiro versículo começa pela palavra: "então".

Ao que tudo indica, os escribas e os fariseus, além de se calar, retiraram-se das proximidades de Jesus. Ele, então, fala abertamente sobre a conduta de ambos os grupos, a fim de instruir os discípulos e as multidões.

2 Sobre a cadeira de Moisés sentaram- se os escribas e os fariseus.

A cátedra de Moisés era o símbolo da autoridade religioso-doutrinária que estava em mãos dos doutores da Lei, também chamados de "escribas", muito afamados por serem os mestres oficiais para explicar as Escrituras. Em sua maioria, eram pertencentes ao grupo dos fariseus. Ou seja, o ensino se concentrara praticamente sob o domínio deles. Entretanto, não podemos esquecer o quanto São João Crisóstomo insiste em afirmar não ser a cátedra que faz o sacerdote, mas sim o contrário.

3 Observai, pois, e fazei tudo o que eles vos disserem, mas não imiteis as suas ações, porque dizem e não fazem.

Orígenes ressalta que Jesus procura, de início, ressalvar a autoridade legitimamente constituída para, logo a seguir, alertar a todos de que não devem imitar os escribas em seu procedimento. E conclui: "Que pode haver de mais deplorável que um doutor cujos discípulos se salvam por não seguir seus exemplos, e se condenam quando o imitam?" (5).

4 Atam cargas pesadas e impossíveis de levar, e as põem sobre os ombros dos outros homens, mas nem com um dedo as querem mover.

São múltiplos os comentários dos exegetas sobre esse versículo. Os fariseus criaram tradições que, longe de elevar o espírito, sobrecarregavamno de escrúpulos. Muito ao contrário do trato farisaico, é preciso ser benigno para com os outros, e rigoroso para consigo mesmo.

5 Fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens. Trazem mais largas as filactérias, e mais compridas as franjas dos seus mantos.

Sobre esse versículo, São João Crisóstomo é bem severo em seu comentário: "O demônio se esforça em corromper o ministério dos sacerdotes, que foi estabelecido para incentivar a santinedade, procurando converter em mal o que é tão bom. (...) Afastemos do clero esse mal e tudo terá resultado perfeito; daqui se deduz quão difícil é o arrependimento dos sacerdotes que pecam" (6).

E após essa ponderação, continua demonstrando a razão mais profunda de os fariseus não terem aderido a Nosso Senhor: eles só se interessavam por sua própria glória terrena. São João Crisóstomo procura, assim, sublinhar a condenação completa das intenções vaidosas das ações dos fariseus.

O uso das filactérias vinha de uma ordem dada por Deus através de Moisés, que dizia: "Levarás os preceitos em tua mão, e os terás sempre à vista". O sentido dessa imposição, segundo comenta São Jerônimo, é este: "Que meus preceitos estejam em tua mão, e os cumprirás com as obras; estejam ante teus olhos, para que medites neles de dia e de noite". Contudo - prossegue o santo Doutor - os fariseus se contentavam em levar à fronte um pergaminho no qual estava escrito o Decálogo, uma espécie de coroa que tinham sempre diante dos olhos. Outro preceito transmitido por Moisés era o de levarem, nas quatro pontas de seus mantos, franjas de jacintos, como sinal distintivo do povo de Israel. Mas, supersticiosos como eram, desejando chamar a atenção dos outros, e apetecendo os ganhos que podiam obter das mulheres, usavam franjas de grande tamanho, atando nelas agudos espinhos, de modo que, ao andarem e se sentarem, dessem-lhes pontadas. Desse modo - conclui São Jerônimo - os fariseus mais pareciam estantes para guardar livros, em vez de conservarem os preceitos de Deus em seus corações.(7)

6 Gostam de ter os primeiros lugares nos banquetes, e as primeiras cadeiras nas sinagogas,

Jesus ama e deseja a existência de uma hierarquia, quer seja na esfera civil, quer na eclesiástica. Não é a ela, portanto, que Ele dirige sua crítica, mas sim ao gosto vaidoso e nada feito de amor a Deus em busca de boas posições. No fundo, condena o mundanismo, defeito característico daqueles que fazem consistir nos bens desta terra o fim último de suas próprias ações.

7 das saudações na praça, e de serem chamados rabi pelos homens.

Novamente não condena Jesus as saudações públicas e nem sequer o título de "mestre", mas tão-somente o vício de querer colocar-se no centro das atenções de todos. Jesus denunciava também a presunção no modo de rezar do fariseu, como na parábola narrada por Lucas (8), na qual o faz figurar ao lado do publicano.

8 Mas vós não vos façais chamar rabis, porque um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos.

Um só Homem poderia dizer de si próprio: "Eu sou a Verdade", porque só Ele é Deus. Todo outro que ensina, age por participação. Ora, os escribas e fariseus julgavam-se a fonte de toda verdade. Ademais, adoravam-se a si próprios, por se considerarem geradores de outros nas vias da perfeição, segundo o equivocado conceito de auto- estima de que estavam embebidos. Ora, nossa procedência sobrenatural é única; temos um só Pai e por isso somos todos irmãos. Daí continuar Jesus:

9 A ninguém chameis pai sobre a terra, porque um só é o vosso Pai, O que está nos Céus. 10 Nem façais que vos chamem mestres, porque um só é o vosso Mestre, Cristo. 11 Quem entre vós for o maior, seja vosso servo.

Ególatras e aproveitadores, os fariseus
abusa-vam dos poderes espirituais
para entesourarbens materiais
 (pintura de Duccio de Buoninsegna
Scala Archives

A essa virtude nos convida o Eclesiástico: "Quanto maior fores, mais te humilhes e encontrarás graça diante de Deus" (Eclo 3, 20). Os santos nos dão maravilhosos exemplos dessa virtude e por isso conseguem magistralmente aliar uma extraordinária humildade a seu extremo oposto, a magnanimidade. Seguem eles o conselho de Tiago: "Humilhai-vos na presença do Senhor, e Ele vos exaltará" (Tg 4, 10) Por isso comentam os santos Doutores que Jesus, nessa passagem, não só anatematiza o desejo egoísta de ocupar os primeiros postos, mas incentiva a se buscarem os últimos lugares. E assim se exprime São Remígio a este propósito: "Todo aquele que se exalta por seus próprios méritos, será humilhado diante de Deus; mas o que se exalta em virtude dos benefícios recebidos de Deus, será exaltado diante d'Ele" (9). Tal qual diz o último versículo do Evangelho de hoje:

12 Aquele que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado.

Exemplo nesse particular, insuperável, é o próprio Cristo, que de Si mesmo pôde afirmar: "Eu não procuro a minha glória" (Jo 8, 50). "Se Eu Me glorifico a Mim mesmo, a minha glória não é nada; meu Pai é que Me glorifica, Aquele que vós dizeis que é vosso Deus" (Jo 8, 54).

III - O farisaísmo: mal de todas as eras

O início do capítulo 23 de São Mateus é um mero preâmbulo da grande e grave condenação que se estende pelos versículos subseqüentes. Para quem não viveu aqueles dias, uma interrogação se levanta: por que tanta incompatibilidade entre Jesus e os fariseus? Além do mais, chama fortemente a atenção o fato de terem os Evangelistas dedicado bons trechos de suas narrações a essa contenda, apesar de a síntese ser o costume da escrita de então. Sabemos por experiência e pela História que um partido político religioso é fadado a desaparecer com o tempo; portanto, o farisaísmo tinha seus dias contados. Por isso, mais ainda se acentua a pergunta: por que essa implacabilidade de ambas as partes?

As páginas de muitos livros seriam insuficientes para responder com minuciosidade essa questão. Basta-nos afirmar, por ora, que o farisaísmo é um mal de todas as eras. Jesus, o Divino Profeta, discerniu quanto seria funesta a presença atuante e dinâmica do fermento farisaico junto aos seus fiéis batizados. Falemos em "fermento" porque, embora o fariseu clássico de há dois mil anos não mais exista, Jesus nos aconselha: "Acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus" (Mt 16, 6). Disse isto dirigindo-se aos Apóstolos, para preveni-los do risco desse perigoso contágio.

Em se tratando de um mal de todas as eras, surge uma outra pergunta: como caracterizar o fermento farisaico em nossos dias? Haverá atualmente católicos que demonstram uma acurada e escrupulosa consciência a propósito de um determinado Mandamento e, de outra parte, um grande relativismo em matérias mais graves? (10) Haverá ainda hoje aqueles que facilmente se escandalizam com banalidades e logo emitem um juízo temerário e malicioso, descuidando-se "da justiça, da misericórdia e da fidelidade"? (Mt 23, 23) Haverá os que manifestam desprezo pelos outros, como se fossem piores do que eles próprios? (11) Haverá o mesmo mundanismo de outrora, tão vituperado pelo Divino Mestre? (12) Quantas outras perguntas poderíamos fazer para melhor analisar nossa atual quadra histórica e assim sabermos onde se concentra o fermento farisaico!

Em síntese, o farisaísmo poderia ser definido como a soma de todos os pecados, pois, assim como a santidade é a verdade e contém todas as virtudes, a mentira e o vazio farisaicos contêm todos os vícios, e a eles conduzem.

1) Cf Mt caps. 5, 6 e 7.
2) Cf Jo 8,44; 10,10; Mt 12,34; e Mt 23.
3) Cf Lc 11, 14-24; 11, 15; 14, 3-5; 15, 2; Jo 8, 52; 10, 20.
4) Cf Jo 7, 31.
5) Apud Catena Aurea, in Mt.
6) Idem 7) Cf Catena Aurea, in Mt 8) Cf Lc 18, 9-14.
9) Apud Catena Aurea, in Mt.
10) Os que filtram um mosquito e engolem um camelo (Mt 23, 24).
11) Parábola do fariseu e do publicano (Lc 18, 9-14); e A pecadora arrependida (Lc 7, 36-50).
12) Cf Mt 23, 6-7.

(Revista Arautos do Evangelho, Out/2005, n. 46, p. 6 à 11)

Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

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